Ohana Dreams (Capítulo 11)

O mar parecia estranhamente manso naquele dia, era como se descansasse após um longo período de tormenta e tempestades. A varanda da casa do Sr. e a Sra. Maximiliano dava de cara com o enorme manto azul, o terreno fora escolhido especialmente por conta daquela vista. Agora que Popplio tinha um tempo para refletir, sentiu saudade de sua casa e de sua família. Por um instante, Treinador e Pokémon não pareceram tão diferentes um do outro.
Não demorou para Hal logo chegasse trazendo dois copos com suco de Oran Berry e uma revistinha dos X-Men debaixo do braço. Ele sentou-se ao lado de Popplio e esticou a rede, onde acomodou-se e começou a folhear sua história. Os dois compartilharam um longo período de silêncio, o Pokémon continuou quieto, até que o garoto decidisse falar:
— Aquele circo mexeu com você, não é mesmo?
A Popplio fez que sim com a cabeça. Hal respirou fundo, fechou a revista e ofereceu o outro suco para sua companheira.
— Você sente falta da sua casa? Gostaria de voltar para seus pais?
Ela fez que não.
— Às vezes a vida parece perder o sentido e é difícil saber para onde seguir... Mas você ainda sente que a arte é para você.
Popplio estava muito chateada com todo o ocorrido, não pelo sentimento de ter sido quase abandonada, pois sabia que as intenções de seu treinadores eram as melhores sentia-se decepcionada consigo própria por não ter sido capaz de mostrar o seu melhor e nem que o mundo a conhecesse. Tinha tanto a oferecer, mas nenhum público para apreciar...
O Pokémon esticou as nadadeiras, como se pedisse colo. Hal a acomodou em cima de sua barriga e dois passaram várias horas na varanda, sentindo a brisa fraca e o cheiro salgado vindo do oceano.
— Por que você não participa das aulas de teatro comigo na escola? É sério, talvez você goste — sugeriu o garoto. — Não é nada grandioso, mas eles permitem Pokémons e aposto que você daria um belo show em qualquer um dos novatos. Começar debaixo é sempre uma boa ideia, não dá para escalar uma montanha pelo pico.
Popplio pareceu gostar da ideia, tendo sua cabeça afagada.
— Daqui alguns anos espero estar sentado em uma varanda como essa, bebendo um delicioso Berry Juice e ouvindo música, contemplando o mesmo céu e oceano... É importante sabermos aonde nosso coração pertence.


Alguns dias se passaram desde o incidente com o Sunset Circus. Hal nunca se esqueceu do grandioso Exeggutor que o salvara duas vezes na vida, pediu de todas as formas que seus amigos o ajudassem a encontrá-lo, já retornara pela terceira vez às planícies onde ocorreu e a batalha e o circo estivera alojado, mas não havia nada além de destroços e vestígios.
Dylan lhe contou que o pessoal do circo saiu impune de toda aquela história, disseram à polícia que foram atacados por Pokémons selvagens, que foi uma tragédia tremenda para seus negócios e nunca mais voltariam para Alola, retornando assim para sua terra natal nas Ilhas Laranja onde fariam novas vítimas aprisionando mais Pokémons, mas enfrenta-los a essa altura estava completamente fora de seu alcance. Um dia eles pagariam por toda a maldade cometida.
O Tio Max ficou muito triste quando soube da notícia, mas exatamente como na primeira vez que os conhecera, acreditava que aquele Exeggutor tinha como propósito em vida proteger aqueles que considerava sua família, e por isso eles tinham de honrar sua escolha.
Muitos dos Pokémons selvagens do circo fugiram, outros foram resgatados e entregues a novos lares que lhes dessem amor e carinho. O Bidoof foi o primeiro a ser adotado por uma família com uma criança de colo. Foi amor à primeira vista — nunca tinham visto um Bidoof e achavam aquele castor muito engraçadinho. Ele seria uma ótima companhia para seu filho, assim eles compartilhariam fortes laços conforme a idade avançasse.
A Tsareena servira os donos do circo desde que era um Bounsweet, praticamente toda a sua vida, por isso nunca compreendeu completamente o fato de que estava livre. Durante a semana que se seguiu ela divertiu-se com Camille e as outras serviçais do Barão, mas Tio Max e sua família não queriam nenhum outro Pokémon trabalhando para eles.
— Por que não fica com ela, Hal? — sugeriu Dylan. — Vamos lá, você leva jeito para cuidar de Pokémons, aposto que ela será sua companheira para toda a vida!
Hal concordou e a nomeou como Candy. Ao contrário de muitas Tsareenas da espécie que possuem gostos refinados e preferem ser tratadas como rainhas, Candy era humilde e preferia a simplicidade e o carinho de seus treinadores.
Muita coisa aconteceu na semana que se seguiu. Kailani e Miliani ainda estavam brigadas, elas não conversaram nenhuma vez desde o resgate, mas era hora de mudanças na vida dos Kameahookohoia e elas não tardaram a vir:
— Nós vamos voltar para Hoenn! — Dylan falou com entusiasmo aquela manhã.
O Sr. Stone, o fundador da Corporação Devon, interessou-se muito pela descoberta da carcaça de um Minior feita por Hal e Dylan nas montanhas de Melemele. Os cientistas da região poderiam estudar o material mais a fundo, acreditavam que com alguns exemplares e o crescente avanço da tecnologia logo seriam capazes de reviver Pokémons fósseis. Foi feito um pedido de que o Barão e sua família retornassem imediatamente com o precioso tesouro.
Dylan caminhava com Miliani e seu Hal pelos jardins da mansão quando contou-lhes toda a história e a súbita decisão.
— Eu quero muito que vocês venham comigo — frisou o rapaz. — Vocês dois.
— É difícil, Dylan... — Mili parecia preocupada. — Digo, nossa vida toda está aqui. Emprego, casa, amigos...
— Tenho certeza que você encontraria um emprego, Mili, você é muito inteligente e esforçada, podemos fazer isso juntos! Até hoje eu não havia encontrado um motivo sólido para assumir uma posição na Corporação Devon, mas se eu conversar com meu pai ele me aceitaria de muito bom grado. Você poderia começar a faculdade de moda que sempre quis, somos jovens, temos todo o futuro a nossa frente!
— Eu não sei... — a moça parecia muito confusa e assustada. O mais longe que jamais chegara de sua casa eram as ilhas vizinhas de Alola. — É uma decisão muito súbita.
— Eu entendo, não se pode simplesmente abandonar a rotina assim de repente. Mas eu e minha família vamos partir no sábado de manhã, então por favor, considere até lá.
Quando Mili voltou ao seu quarto na mansão, ela soube que logo aquilo tudo estava para terminar. A mordomia, o aconchego — era chegada a hora de voltar para sua velha e confortável cabana destruída na beira do mar.
— O que eu faço, Hal? Quero muito ir junto com o Dylan, mas tenho minha vida toda aqui. A Kai não conversa comigo faz mais de uma semana, não tenho notícias dela, estou começando a ficar preocupada...
— Mili, e-eu tenho que te contar uma coisa...
 Hal ainda sentia a culpa de ter contado para Kai sobre o beijo, mas amava sua irmã com a mesma intensidade, por isso compartilhou sua versão da história.
Miliani sentou-se na beirada da cama no mesmo instante e o encarou com severidade.
— Você fez mesmo isso? Como pôde? Qual é o seu problema?! Você sabe que a Kai é a garota mais ciumenta do mundo, ela provavelmente vai pensar que esse beijo foi quase que nem sexo! Por Arceus, é por isso que ela tem me evitado!
Mili pensou em todas as possibilidades que aquilo causara, mas havia uma maneira de conseguir contatar sua amiga antes de Dylan ir embora.
Ainda naquele dia telefonou para o dono da Cabana do Luar e sugeriu que eles organizassem um evento especial para os turistas, como uma ritual de boas vindas às estações de calor. Seria feita uma grande festa no melhor estilo de Alola, com direito a cantoria, tochas e shows pirotécnicos. Tanto Mili quanto Kai trabalhavam ali, logo nenhuma delas poderiam faltar no emprego, então uma hora ou outra teriam de se encontrar.
— E quanto a você, senhor Hal, pare de meter o nariz aonde não deve — respondeu Miliani, enfezada. — Já a minha lição foi muito maior... Eu prometo nunca mais chatear ou decepcionar as pessoas que eu amo, se por ventura eu fizer isso, sinta-se livre para espalhar para meio mundo!
— Deixa comigo — respondeu o jovem, compartilhando um forte abraço com sua irmã.


Miliani prometeu que pagaria Ika e Uko com uma pizza de pepperoni se eles lhe dessem a localizassem de Kailani até o fim de semana. Eles a encontraram duas horas depois na sorveteria VaniDelluxe, tomando sorvete sozinha e desinteressada.
Mili disfarçou-se bem com óculos de sol e um daqueles chapéus cafonas. Ela sentou-se a mesa ao lado de Kai que imediatamente percebeu quem era e não conseguiu deixar de rir.
— Por Arceus, essas roupas de gringo são brega demais — falou Kai.
— Eu sei, peguei emprestado da Senhorita Renée.
— Se sua intenção era passar despercebida, não deu muito certo...
Mili revelou um sorriso de relance, tirou os óculos e o chapéu, mas ainda não conseguia encarar sua amiga nos olhos.
— E então... Como é que está?
— Bem. — Ela respondeu de forma seca. Nem ofereceu o sorvete. — E você?
— Também.
Era como se elas nunca tivessem se visto na vida.
— Vamos ter uma apresentação importante esse fim de semana, eu queria saber se você gostaria de ensaiar, e...
— Não tô afim. — Fez-se silêncio novamente, então Kai continuou: — Você é boa nisso, sabe os passos de cor. Não precisamos ensaiar.
Miliani ficou observando a forma como Kai lambia o sorvete de creme. Já sentia muita falta dela.
— Está esperando alguma coisa? — Kai perguntou de novo. — Não te vi pedindo nada. Ou talvez você tenha algo que queira me contar...
— Eu... acho que não.
— Não? — Kai fechou o punho na frente do seu rosto, como se desejasse que ela estivesse ali para esmaga-la. — Não minta para mim. Faça tudo, mas não minta.
Mili recuou assustada e mordeu os lábios para evitar chorar ali no meio da sorveteria, mas sua amiga levantou-se e saiu dali antes.
— Por favor, Kai, não vá! — suplicou Miliani.
— Caramba, garota, não dá pra resistir a essa sua carinha triste mesmo quando você faz uma merda daquelas!
— Me desculpa, Kai, foi errado da minha parte não te contar! Mas há tantas coisas acontecendo, eu não poderia ir embora sem conversar com você antes, só me dê uma chance!
— Ir embora? Aonde pensa que vai, você não sabe nem andar sozinha até o porto.
Kailani zombava até concluir que ela não viajaria de barco para nenhum lugar, porque seu destino estava longe, muito longe...
— Espera. Você vai para Hoenn com o loirinho, não vai?
— Kai, eu...
— “Kai, Kai, Kai!” Você só sabe falar o meu nome? Parece até que está gemendo... O que me lembrou daquela noite no ano novo em que meus pais me colocaram para fora de casa. Eu estava triste e desesperada, prestes a ter a pior noite da minha vida e começaria o ano me sentindo um verdadeiro Trubbish — disse Kailani, sua voz antes tão severa aos poucos diminuindo o tom. — Foi então que você me acolheu porque eu parecia um Rockruff sem dono... Seu irmãozinho preparou uma ceia deliciosa, nós estouramos refrigerante cheio de espuma porque não tínhamos grana pra comprar champanhe com álcool e ainda éramos menor de idade. Nós passamos a noite inteira juntas...
— Foi a melhor noite da minha vida — completou Mili, alegando que nunca se esqueceria daquele dia. Sua amiga começou a rir sem parar.
— Garota, você não me deu uma trégua nem por um instante! Onde é que tira esse apetite?
— Aprendi com a melhor.
As duas se encararam por um longo instante, separadas apenas pela calçada desgastada na beira da praia.
Mili correu e a abraçou, sentiu seu coração disparar ao perceber que Kai também a abraçava com tanta força que parecia nunca mais querer largar. Mili começou a chorar porque era banhada por lembranças maravilhosas. Ela era sua única e melhor amiga, como poderia dar-lhes as costas?
— Você odeia quando eu falo palavrão, mas eu gosto de você pra caralho! — falou Kailani. — Não sei se serei capaz de dizer “eu te amo” tão cedo, mas não posso me dar ao luxo de ficar outro dia sequer sem você.
— Olha a boca, mocinha. Vou ter que te calar? — ela a corrigiu, dando um selinho de leve naqueles lábios ainda com gosto de sorvete de creme.
Foi nesse instante que um grupo de garotos saíam da padaria ao lado e viram a cena. Pareciam ser de outra ilha, porque não tinham pinta de turista e nem eram conhecidos dos arredores. Um deles imediatamente começou a caçoar das garotas e os demais entraram a brincadeira
— Galera, saca só essa cena!
— Ah, quanto desperdício...
— Ô, se fosse lá em casa!
Mili quis se desvencilhar do abraço imediatamente, mas Kai a segurou com mais força e a pressionou contra seu peito.
— Por que vocês não somem daqui, seus imprestáveis?
Kai imaginou que eles iriam embora depois de as ofenderem de tantas maneiras, mas eles agora se aproximavam como se estivessem apenas começando o show. Miliani desejou mentalmente que aquilo não terminasse em briga, Kai era muito esquentada e não levava desaforo para casa. Justo agora que elas haviam se reconciliado!
Por algum milagre, os garotos começaram a se afastar e logo deram meia volta, apressando o passo como se tivessem visto um fantasma. Ao virar-se, Kai deu de cara com Uko, um gigante ameaçador com todo seu tamanho. Ika também estava junto, esguio eles pareciam ter afastado aqueles jovens inconvenientes só pela aparência.
— Maluco, tu viu isso? Esses brancos correm pra caramba quando querem! — falou Ika.
— Heh, heh. Podemos correr atrás deles também, irmão?
— Agora não vai dar, Uko. Temos que levar as meninas em segurança pra casa. Tem vez que essa vila é cheia de gente sem noção, tá ligado?


O dia da festa finalmente chegou. O fim de semana estava perfeito com sol e um clima agradável ao anoitecer. Todos os preparativos foram feitos, Hal vestiu sua camisa florida amarela e os shorts que ganhara de aniversário dos pais para ver um dos shows mais aguardados do ano — a maioria ainda não sabia, mas seria a despedida de Miliani. Àquela altura Dylan estava enlouquecendo com perguntas sobre a viagem, ele compreendia que não poderia força-la a ir se não quisesse, mas também não obtivera resposta alguma. Mili mesmo estava indecisa, mas precisou dizer ao seu chefe que aquele seria seu último show ou não aconteceria festa alguma.
Ika e Uko compareceram somente para ganhar alguns aperitivos de graça por toda a ajuda que prestaram ao Barão e sua família. Hal se divertiu muito com eles, sabia que precisava colaborar para que tudo na festa ficasse sobre controle. Ao término do show, Mili teria a “conversa decisiva” com Kailani e sabe-se lá no que aquilo iria resultar.
Mili encontrou sua amiga nos bastidores ainda se vestindo. Kai estava virada de costas tentando prender o sutiã e chamou-a quando a viu pelo reflexo do espelho.
— Vai me ajudar ou só ficar aí olhando para a minha bunda?
Mili sorriu e correu para fazer os ajustes. Apesar da brincadeira, Kai continuava séria e um clima estranho pairava entre elas. Mili abriu a boca para falar quando foi interrompida:
— Por favor, agora não. Temos um espetáculo para dar e eu não aceito nada menos do que a perfeição — disse Kai ao virar-se para ela e beijar-lhe na bochecha. — Te espero na praia quando acabar. No nosso esconderijo, tá bem?
Mili corou só de pensar e foi tomada por muitos pensamentos indecentes que aquele esconderijo lhe traziam. A primeira vez que ela e Kai se beijaram foi ali, na beira do oceano. Só foi despertada de seus devaneios quando seu nome foi anunciado. Era hora de uma entrada triunfal para embelezar a noite.
Miliani estava deslumbrante em qualquer ocasião, era como se ela tivesse nascido na noite, onde ninguém a enxergava completamente, como se fosse apenas um foco luminoso no meio da escuridão Kailani brilhava por si só, quando se cansava de sua própria luz ela recorria à sua companheira para compartilhar, pois juntas eram uma dupla perfeita.
Não precisavam mais ensaiar os passos, tinham na cabeça cada gesto de uma dança típica na região que se popularizou no mundo todo. O vestido de Mili flutuava como se fosse uma galáxia enquanto Kai colava a coxa nela com sensualidade, a dança era como uma disputa de amor e ódio, ambas colocavam tudo de si naquele último encontro entre o sol e a lua. Dylan não conseguia ficar de boca fechada, quanto mais via Miliani, mais desejava tê-la para sempre ao seu lado.
Foram feitos shows com fogo e até mesmo fogos de artificio. Pokémons e treinadores se divertiam, o Sr. e a Sra. Maximiliano nunca antes viram um espetáculo tão bem. Ao término da apresentação, o diretor da Cabana do Luar fez o derradeiro anúncio:
— É com orgulho e muito pesar que anúncio que este foi último show da nossa dupla! Uma salva de palmas para Miliani que deixará Alola para estudar em terras estrangeiras, vamos desejar-lhe sorte em sua empreitada e que ela nunca se esqueça dessa terra sagrada que estará sempre te braços abertos para recebê-la!
Nesse instante, Dylan soube que a resposta para a viagem era “sim”. Levantou-se imediatamente para abraçar Miliani, mas não a encontrou em lugar algum. Quando perguntou para Hal se ele sabia onde sua irmã estava, o garoto respondeu:
— Ela já vai voltar... Não se preocupe, vocês terão bastante tempo para conversar em sua viagem, só a deixe se despedir de Alola e tudo que ela já amou um dia.

Kai e Mili de fato voltaram para o backstage, mas saíram dali pelos fundos. Elas se livraram das roupas do evento o mais rápido que puderam e seguraram uma na mão da outra enquanto corriam pela estrada sem iluminação para que não fossem vistas por mais ninguém.
A praia estava completamente deserta. Kai sentia o toque da areia em seus pés. Os chinelos ficaram para trás, elas correram até o mar, Kai jogava água em sua amiga e as duas riram como nos tempos em que eram apenas crianças em busca de diversão.
Quando se cansaram, Kailani deitou-se na areia com os braços esticados e Mili sentou-se ao seu lado sobre uma pedra. Elas ficaram ali, iluminadas somente pelas estrelas e pela lua.
— Quem começa?
Mili aninhou-se ao lado dela, sem importar-se com a sujeira em seu vestido ou seus longos cabelos prateados.
— Primeiro: foi só um beijo.
— Só um beijo? Tá bom —  Kailani revirou os olhos em tom de sarcasmo. —  Olha só aonde esse beijo te levou... Para longe, muito longe de mim.
— Eu sou uma idiota por ter feito algo que te magoou tanto...
— Isso não foi nada perto do que eu estava prestes a fazer com você! Ouve só essa... Sabe o Michael, o mímico que trabalhava no circo? Eu e ele nos encontramos na cidade depois que seu irmão me contou que você e o loirinho se beijaram. Eu estava furiosa com você. Tão furiosa que queria transar com o primeiro cara que encontrasse, e o escolhido foi o Michael. Nós saímos juntos e eu bebi até cair e não conseguir mais levantar, ele me levou para um motel e nós estávamos quase fazendo uma tremenda burrice quando eu percebi que... não curto homens. Antes eu achava que poderia gostar, mas agora tenho CERTEZA que não rola. O Michael foi um anjo comigo, no fim das contas ele era gay e não teria acontecido nada mesmo, mas foi uma prova do quão mau eu posso ser quando traída.
— Minha nossa. Que história! — Mili parecia realmente chocada. — E eu só dei um beijinho no Dylan.
— Não duvide das capacidades de uma escorpiana de se vingar, querida, eu espirro veneno para todos os lados! Quando fiquei sabendo que você estava em perigo no circo, quis salvá-la imediatamente. Você e o Hal são parte da minha família, sabe disso.
— Obrigada por ser sincera comigo — disse Miliani. — Te imaginar com um cara já é engraçado o bastante!
— Nem me fale, terei pesadelos com isso... Mas no fim das contas, eu sempre soube que você era bissexual. Não resiste a um tanquinho, não é?
Elas se divertiam muito, mas a noite parecia estar correndo muito depressa e logo dariam falta das duas principais dançarinas do show.
— Quando você disse que o Dylan me levaria para longe, estava certa. Ele pediu que eu o acompanhasse para Hoenn.
— Aquele loirinho desgraçado, só porque eu estava começando a gostar dele!
— Mas ele também sugeriu que o Hal fosse...
— Você sabe que o Hal nunca iria.
— Isso automaticamente me impediria de ir também — continuou Mili com ares de preocupação. — Ele é meu irmãozinho, tenho que cuidar dele.
— Ele é o seu irmão, sim, mas você não é mãe dele. O Hal é um garoto crescido.
Fez-se um curto intervalo até Kai falar:
— Se quiser saber minha opinião, você devia ir.
— Mas isso me deixaria longe de você...
— Nossos caminhos seguiram juntos até hoje, Mili, mas se você quiser continuar o seu, você precisa ir embora. Se continuar aqui em Melemele seremos só um casal de velhinhas, mas você tem que cursar uma faculdade, tem ser grandiosa e estampar a capa de todas as revistas de moda e mostrar para essas vadias quem é que manda!
— Isso é possível, Kai? Você amar tanto alguém, mas acabar ficando com outro?
— Não sei. Só sei que eu quero que você seja feliz e que tenham uma família grande e feliz, que tenham filhos e vivam em uma casa enorme tomando banho de banheira aos fins de semana e fazendo sexo selvagem. Eu não poderia te entregar nada disso — ou melhor, o sexo eu faço até melhor! — mas eu sei o que seu coração pede... Alola nunca foi o suficiente, não é?
— Não me julgue interesseira, é só que...
— Quem sou eu para julgar? Você está bem, está feliz, e nós vivemos tempos maravilhosos juntas. Não posso te prender como se fosse meu passarinho, e nem você poderá fazer o mesmo comigo. Até quando você tem para responder o cara?
— Amanhã.
— Querida, então é melhor se apressar, porque temos uma mala enorme para preparar!

                       
O Barão Maximiliano e sua esposa Renée já estavam prontos com todos seus criados e pertences no jato particular que os levaria de volta para Hoenn. Dylan batia o pé, mas não havia sinal de Miliani. Seu amigo Izrael, que costumava atrasar-se quase uma hora em todas as viagens, acabou chegando antes.
— E aí, parceiro — falou Iz com as malas prontas para a viagem. — Estamos esperando o quê?
— Ah, cara... Um beijinho de despedida, talvez?
— Por que não falou logo, maluco? Chega mais — respondeu Iz, esticando os braços para seu amigo que caiu na risada e o empurrou para longe.
— Tá doido, velho? Tô falando um beijo da Mili.
Para sua surpresa, um pontinho prata pôde ser visto de longe no aeroporto. Mili estava correndo com três malas enormes contendo suas bagagens, vestia um vestido azul florido, óculos escuros e o chapéu cafona que ganhara de presente. Dylan não se aguentou de rir quando a viu.
— Eu não acredito no que estou vendo!
— Prepare o jato, estamos partindo! — respondeu Mili apreensiva.
Os funcionários colocaram todas as malas dentro. Não havia hora para o jato partir, era o próprio Barão quem dava as ordens e ele sabia como aquele momento era importante para seu filho. Faltava apenas uma despedida.
— Bom, acho que isso é — falou Hal, enfiando as mãos no bolso dos shorts. — Até!
— Ué, maninho... Suas coisas não estão aqui também? — perguntou Dylan.
— Nem, aquilo tudo são só as malas da minha irmã... Eu vou ficar.
— E quem vai cuidar de você? E do Dia? — Dylan parecia muito preocupado com a ideia de um garoto de doze anos ficar abandonado, mas foi surpreendido.
— A segunda irmã dele! — falou Kailani com uma risada. — Eu vou encher esse garoto de tanto carinho que ele nunca mais vai querer a irmã antiga. Eu sou a preferida dele agora. Há! Morra de inveja.
Mili ainda arfava de cansaço, mal conseguia escolher as palavras.
— Dylan, só me prometa uma coisa... Eu preciso voltar ocasionalmente. Uma vez a cada três meses, seis, quando for possível — falou, contemplando tudo que estava deixando para trás. — Essa ainda é a minha família.
Dylan segurou as duas mãos dela com carinho.
— Mili, a gente volta todo dia se você quiser. Até porque se for pra passar mais alguns dias no paraíso eu tenho sempre disposição!
A moça sorriu e agradeceu a oportunidade e o carinho com que era tratada. Pediu que Dylan e Izrael fossem entrando, tinha algumas palavrinhas finais para trocar com quem ficava. Agora estavam uma de frente para a outra, Hal desviava o olhar para que não o vissem chorando, porque odiava despedidas.
— Então, acho que isso é um adeus — falou Miliani.
Kai devolveu-lhe uma piscadela sedutora.
— Vê se não volta correndo pra mim quando decidir de vez que prefere mulheres, hein?
— Pode deixar. A primeira a gente nunca esquece. E você, meu irmãozinho do coração. Comporte-se, ouviu? Se chegar alguma carta da Kai dizendo que você não está se comportando, eu volto para te dar umas boas palmadas na mesma hora ouviu?
Ela deu-lhe um beijo rápido na testa e virou-se para ir embora. Os dois precisaram se afastar para que o jato tivesse espaço para decolar, ver Mili caminhar em direção daquele pássaro metálico seria a última imagem que teriam dela. Os próximos dias seriam completamente diferentes, sabiam que nada seria como era. Só esperavam aprender a conviver sem sua companhia.
Nesse instante, Hal retirou algo do bolso. Kai surpreendeu-se ao ver que era seu colar de ouro.
— O-onde foi que você achou isso?
— Isso não importa agora. Só não a deixe ir sem antes se despedir de forma adequada!
Kai apanhou o colar na mão e saiu correndo feito louca gritando o nome da amiga.
— Mili! Volta já aqui e nos abrace como gente!
Miliani virou-se como se só estivesse esperando alguém chama-la. Seu chapéu saiu voando e ela não se importou, voltou correndo e caiu nos braços de sua melhor amiga. Mili agora chorava muito — não de tristeza, mas de uma saudade que sabia que iria sentir até o fim de sua vida. Era o preço de seus sonhos e suas vontades. Quem sabe algum dia lá na frente pudesse retornar com o sorriso de quem cumpriu cada um deles.
— Eu amo vocês! Vocês são as pessoas mais importantes na minha vida! — disse Miliani, esticando o braço para acolher Hal que agora ajoelhava-se para unir-se ao abraço.
— Eu sempre serei sua Kailani. Sua primeira experiência. Indomável. Ardente — disse a moça que debaixo do sol brilhava feito ouro. — Vá, minha linda. Minha fofa. Minha musa. Minha deusa de cabelos prateados. Minha lua.
Kai prendeu o colar que comprou no pescoço dela. Atirara-o no mar, mas de alguma maneira o mar o trouxe de volta.
— Use isso. Vai te proteger, eu estarei te olhando sempre.
Naquele instante não importava se o colar se tratava ou não de um artesanato barato. Para Mili, era como um totem que seria guardado a sete chaves.
— Obrigada, Kai! Eu amo muito vocês, ouviram? Muito! Muito! Muito!
E ela continuou a repetir “muito” até que fechassem as portas.
O pequeno Rockruff ainda latia para o barulho das bobinas do avião. Popplio acenava para com uma das nadadeiras.
Mais tarde Hal contou que o colar fora milagrosamente encontrado por Ika enquanto ele pescava Magikarps com seu irmão Uko. Hal prometeu que lhes compraria pizza durante uma semana inteira em troca daquele caridoso presente que tinha “valor inestimável”. Encontrar o colar dentro da barriga de um peixe, só podia ser história de pescador!
Mili finalmente entrou no avião e se acomodou ao lado de sua nova família. Sentiu um arrepio na nuca quando soube que ele estava prestes a voar como um Skarmory gigantesco. A região de Alola logo não passaria de quatro ilhas perdidas no meio do oceano azul.
— É a primeira vez que ando de avião — admitiu Miliani.
— Dá um friozinho na barriga quando sobe, mas você vai gostar — falou Dylan. — Uau, que colar lindo! Eu não tinha reparado que você estava usando.
Mili olhou para ele e sorriu.
— É o meu sol!

   

Ohana Dreams (Capítulo 10)

Nunca foi dos mais fofoqueiros da sua turma na escola, mas pela primeira vez sentiu que tinha um segredo que precisava ser compartilhado.
Hal passou dois longos dias refletindo sobre sua situação. Sua irmã obviamente gostava de Dylan, mas ela namorava Kailani, que também era sua amiga. Se ele contasse que Mili a estava traindo, estaria assim fazendo a coisa certa ou seria melhor omitir uma informação e fingir que nada aconteceu? Mili andava distante e Kai não dava as caras há dias. Por um instante, desejou que sua vida apenas voltasse a ser como era.
 Não deveria estar saindo de casa tão tarde, mas também não poderia continuar mais um segundo sequer com aquela dúvida. Ao anoitecer Hal ajeitou sua mochila nas costas e deixou a mansão pelos fundos no horário em que as empregadas jantavam. Não avisou sua irmã, nem Dylan ou Sr. e a Sra. Maximiliano. Preferia que ninguém ficasse sabendo de sua saída. Sempre soube de cor o endereço de onde Kailani morava, ela costumava dizer que se Hal se perdesse na ilha então deveria ir procura-la no mesmo instante, porque ela estaria sempre disposta a ajudar. Agora seria a sua vez de ajuda-la.
Na estrada, Hal pegou uma carona com Ika que arranjou um emprego como caminhoneiro com recomendação do Sr. Maximiliano. Para alguém que estava desempregado há pelo menos oito anos, foi uma ajuda vinda dos céus. Agora Ika e Uko ajudavam nas entregas no porto e voltavam de um dia cansativo de trabalho no vilarejo próximo.
Quando Hal pediu maiores informações sobre sua amiga, eles se prontificaram em leva-lo até a vila.
— Acho que vi a garota de cabelo curto não faz muito tempo — comentou Ika pensativo enquanto dirigia com um dos braços para fora. — Onde era mesmo Uko?
— Naquela loja de coisinhas brilhantes — respondeu o gigante, sentindo o vento soprar na cara com o vidro abaixado.
— Pode crer, a loja de joias! Vamos dar uma corrida porque talvez dê tempo de t u encontre ela por lá, brother. A gente vai se falando!
Hal apressou-se até a única loja de joias que conhecia no vilarejo. Tratava-se de uma senhora de pele escura que vendia pedras raras e pérolas retiradas diretamente do oceano a preço de banana. Os turistas se esbaldavam com a barganha, principalmente se comparado aos altos preços da cidade.
Hal não encontrou Kailani por lá. Quando passou próximo à feira noturna que sempre atraía multidões de todas as regiões para seus artesanatos, sentiu que alguém tampou seus olhos por trás e sussurrou em seu ouvido:
— Adivinha quem é?
— Kai, você é a única que faz isso comigo desde criança — Hal respondeu com uma risada para a surpresa da moça. Não achou que seria desmascarada com tanta facilidade.
— Ai, isso nunca vai perder a graça! Me diz então, o que faz aqui fora a uma hora dessas? Está passeando com sua irmã?
— A Mili ficou na mansão... Eu vim sozinho.
— Sozinho? Hal, querido, é perigoso para uma criança andar por aí sozinho à noite, mesmo alguém valente e corajoso como você — respondeu Kailani com ares de preocupação. Ela sempre agiu como se fosse sua própria irmã, e às vezes realmente era mais cuidadosa e prestativa do que Mili. — Na próxima vez me chama, ok? Independente de onde estiver ou do horário que seja. Eu te protejo.
Kailani sorriu e deu-lhe um empurrão fraco no ombro, mas por algum motivo naquela noite abafada o garoto não ria ou se divertia como de costume.
— Vem. Vamos andar um pouco — disse Kai ao ajeitar sua bolsa, pedindo-o que a seguisse.
Os dois andaram em silêncio pela calçada na costa. A vila não estava tão movimentada quanto de costume, mas as luzes noturnas davam um belo show que só Alola sabia oferecer, especialmente vindo de uma vila que mal se recuperara de uma tempestade com a força de um furacão. Algumas vezes Kai gostava de andar de mãos dadas com Hal só para fazê-lo passar vergonha, divertia-se à beça quando os amiguinhos da escola do menino perguntavam se ela era sua namorada ou algo do tipo; mas dessa vez ambos seguiram lado a lado sem muito contato físico ou visual.
Eles andavam sem um rumo ao certo, Hal sentia as palavras presas em sua garganta. Kai agia tão descontraída e animada, sorria para homens e mulheres que passavam ao seu lado, não porque os desejava, mas porque sentia-se feliz e precisava retribuir o mundo de alguma maneira.
Quando alcançaram o porto, Kai apoiou-se na beira do píer enquanto se equilibrava entre toras de madeira levemente soltas. Fez sinal para que Hal a seguisse e o garoto a acompanhou até chegarem bem longe da cidade, até que a música animada da noite deixasse de ser ouvida e o movimento desaparecesse. Só se ouvia o som das ondas e do mar.
— Kai, eu... — Hal começou, mas sua amiga não o deixou terminar.
— Olha só o que comprei — ela retirou o que parecia ser um lindo colar de ouro de sua bolsa. Parecia custar os olhos da cara, porque era incrustado com uma linda safira azulada no centro. Hal ficou maravilhado e por um instante perdeu a fala novamente.
— É lindo...
— É para a sua irmã.
— Tá brincando? Ela não merece — o garoto disse num tom cínico.
— Merece, sim. Sua irmã é a garota mais incrível que já conheci em toda a minha vida. Digo, não é como se fosse um pedido de casamento nem nada, é só uma lembrancinha mesmo, e... quero dizer, ah, estou me enrolando toda — disse Kailani num raro gesto onde sentia seu rosto corar. — Acho que eu só gosto muito dela.
— Era exatamente sobre isso que eu queria falar, Kai...
A mão da moça recuou e sua expressão tão sorridente foi diminuindo.
— Outro dia eu vi minha irmã beijando o Dylan. Achei que deveria te contar.
Hal sentiu-se um traidor fajuto. Talvez fosse melhor não ter contado. Agora as duas iam brigar, terminariam o namoro e se odiariam para o resto da vida. Kai agia como se ela já soubesse. Sua namorada, morando com um cara loiro, rico e sarado em uma mansão que custava milhões, seus medos só podiam estar se tornando reais.
 O menino fechou o punho e desejou nunca ter falado nada, mas viu Kai agachar para ficar da sua altura. Seu coração bateu mais depressa.
— Obrigada por me contar. Você fez a coisa certa.
Kailani ajeitou sua bolsa e estava para ir embora quando Hal lhe perguntou:
— O que vai fazer agora?
— Vou voltar para casa. Pensar um pouco. E chorar pra caralho. Você... sabe o caminho de volta para a mansão, não é? Desculpa, Hal, eu não vou conseguir te acompanhar e proteger como eu havia dito...
— Kai, por favor, não fica triste — Hal emendou, sentindo que também começaria a chorar se visse seu porto seguro desabar em sua frente. — Eu não devia ter contado, eu só queria...
— Eu senti que ela estava estranha, sabe? Só não queria admitir a mim mesma. Acho que não poderei entregar meu presente a ela, então você acha que poderia fazer por mim? — indagou a moça, mostrando-lhe o colar de ouro.
Hal fez que não com a cabeça.
— Não posso! Ela tem que receber esse presente diretamente de você, Kai! Você tem que mostrar que o seu amor por ela é mais sincero e verdadeiro, eu gosto muito do Dylan, mas pode ser que eles só tenham cometido um erro, e...
Kailani virou-se para o mar e atirou o colar lá longe para o fundo do oceano. Hal arregalou os olhos, nem que quisesse conseguiria busca-lo.
— Por que você fez isso?! Você não devia ter jogado, era um presente caro!
Era falso, não se tocou? Passei na joalheria e olhei alguns preços, céus, eu não poderia comprar nada lá nem que juntasse o meu salário de um ano inteiro! — gritou Kailani com todas as forças, esfregando seu rosto na tentativa de conter a raiva. — Eu não tenho grana pra comprar coisa cara, eu não tenho um carro, não tenho um trabalho decente e nem pais que compram uma mansão legal pra mim. Eu não tenho nada! Só tenho amor... muito amor para dar. Mas esse amor só me fode.
Kai cobriu seus próprios olhos, como se não quisesse que ninguém no mundo a visse chorar daquela maneira, muito menos aqueles que amava. Sem conseguir se despedir, correu no caminho oposto do píer em direção da música e do som, desaparecendo em meio ao movimento da cidade como uma sombra qualquer.
Hal abraçou seus joelhos e chorou por muito tempo ali, sozinho. Nunca soube dizer se fez a escolha certa naquele dia. Mas não era justo, simplesmente não era o tipo de amor que conhecia e aprendeu a respeitar.
Não sabia nem como voltar para casa e compartilhar o quarto com sua irmã sem sentir arrependimento e tristeza. Naquelas circunstâncias, procurou por seus amigos Ika e Uko e os encontrou num dos albergues para moradores de rua. Não se comparava em nada ao luxo que vinha tendo nos últimos dias, mas era o que achava que merecia. O local estava muito cheio por conta dos vários desabrigados desde a tempestade. Quando contou que passaria uma noite com eles, Ika e Uko festejaram e em momento algum perguntaram o motivo.
Passou a noite entre roncos, o som de madeira rangendo e outros barulhos esquisitos. Teve bastante tempo para pensar. Primeiro planejou voltar para sua antiga casa destruída, as reservas de alimento poderiam durar algumas semanas — isso se já não tivessem estragado, parecia que anos se passaram desde a tempestade —, se desse um jeito nas janelas quebradas e nas goteiras talvez conseguisse se virar por alguns dias. Isto é, até que Mili ficasse preocupada e decidisse ir procura-lo.
Isso se ela se der conta de que eu sumi, pensou Hal. Mili está muito contente com Dylan, é mais provável que saiam de mãos dadas e fujam para Hoenn, onde terão filhos e viverão como uma família grande e feliz.
Se pelo menos tivesse seus Pokémon ao seu lado... Popplio estava treinando com os outros artistas do circo e sua irmã nunca o deixaria levar Diamante embora, o Rockruff era a única lembrança dos pais. Sobrava o pequeno Exeggcute, que não tinha muita noção do que fazia, mas era um bom companheiro.
Seu coração se remoía de pena por Kai. Nunca se esqueceria do rosto dela aos prontos, da forma triste e furiosa como falou e atirou o colar de ouro bem longe. Devia tê-la abraçado mais, ter dito como a amava, mas não da mesma forma como a sua irmã. Hal a respeitava e torcia para que tudo na sua vida desse certo.
Hal não percebeu que algumas lágrimas escorreram pelo travesseiro. O albergue inteiro estava imerso em um sono profundo, mas uma voz grave foi ouvida ao seu lado:
— Seu rosto está vazando, maninho.
Era Uko, um gigante todo espremido e com os pés para fora em um colchão com metade do seu tamanho. Hal nunca conseguiria encontrar um motivo plausível para explicar a causa de seu sofrimento.
— É. Melhor fechar as torneiras — Hal sorriu em resposta. — É que eu fiquei muito tempo nadando no oceano, olha só, tem até um gosto salgado.
— É bom deixar sair essa água — respondeu Uko, aninhando-se em seu travesseiro fino com seus enormes braços. — É bom mandar tudo embora.
Na manhã seguinte, Hal agradeceu a companhia de seus amigos e disse que tinha alguns compromissos a cumprir.
— Tem certeza que tu não quer ir pescar com a gente? Vamos ver se damos a sorte de encontrar um Magikarp Shiny, tô sentindo que hoje é meu dia de sorte. Até o vento e o mar tão bem de boas. É um sinal, brother, é um sinal — falou Ika.
— Obrigado, mas vou buscar a Chefe no circo. Deixei a Popplio com eles para que praticasse durante uma semana, mas não sei se vou aguentar ficar longe dela — respondeu Hal.
— Se cuida, maninho — continuou Uko. — Se precisar da gente, sabe onde nos encontrar.
Era uma quinta-feira comum, não haveria espetáculos até sexta à noite e por isso julgou que não estaria atrapalhando os outros artistas com seus horários. Hal fez todo o percurso na estrada sozinho, quando alcançou a tenda do circo pediu que um carregador chamasse o dono e dissesse que Hala Kameahookohoia estava ali.
Quando o homem voltou, a resposta o pegou de surpresa:
— O chefe disse que não conhece nenhum Hala.
— Mas o quê? Eu estive aqui fim de semana passado, sou o dono da Popplio!
O sujeito mexeu a cabeça de forma pensativa e apressou-se para ir embora.
— Não sei do que você está falando. Volte amanhã em uma de nossas apresentações, estamos ocupados.
Hal ficou furioso com a recepção. Popplio ainda era sua e a levaria quando bem quisesse. Ele se esgueirou entre caixotes e enormes carros de transporte, conseguia camuflar-se bem porque era pequeno e o local estava relativamente vazio. Procurou uma forma de entrar na tenda ser notado, mas enquanto fazia seus planos mentalmente ouviu um sussurro vindo de trás de uma cortina. Hal estranhou o som e procurou ver de onde ele vinha. Quando levantou um dos panos, deu de cara com um pequeno Bidoof acorrentado e com a perna machucada. Reconheceu imediatamente como sendo a mesma pobre criatura que eles usavam como parte da piada do Mimikyuu.
O Bidoof pareceu desesperado ao vê-lo, arranhando as grades como se pedisse por socorro. Hal comprara alguns biscoitos para a viagem na padaria antes de sair, por isso decidiu compartilhar o alimento com o Pokémon que devorou tudo como se sua vida dependesse disso.
— Fique bem, amiguinho — falou, afagando a cabeça do castor, pois ele sabia que não conseguiria tirá-lo dali sem arranjar confusão.
Aos poucos o circo deixava de ser o espetáculo fabuloso que pensava ser.
Quando finalmente adentrou a tenda principal, percebeu que a situação era mais crítica do que imaginara. A linda Tsareena que era uma das principais atrações tinha correntes nos pés e encontrava-se servindo três pessoas que discutiam algo em uma mesa afastada. O Mr. Mime do mímico também estava da mesma forma, trabalhando como um escravo para humanos perigosos que se aproveitavam dos Pokémon. Ainda não havia sinal de Popplio.
— Apenas quinhentos ingressos foram vendidos? Isso não é nem um quarto de nossos assentos disponíveis, eu me recuso a apresentar-me para uma plateia tão mísera — falou uma voz que Hal reconheceu como sendo de um dos palhaços. Provavelmente Wally.
— Talvez este seja um sinal de que vocês e todo o resto desse bando de lixo não foram bons o suficiente! — retrucou uma voz mais alta e ameaçadora. Era o homem de cartola, o chefe do circo.
— Nós fazemos o que podemos, mas não dá mais para inovar. Tivemos sorte que aquele Popplio apareceu do nada no palco, ou eu não aguentaria fazer a mesma piada pela centésima vez — continuou Wilson, o segundo palhaço que estava sempre com um cigarro entre os dentes.
A dupla agora não tinha nada de engraçada. Eles mais se pareciam com executivos, trajados em camisas de marca e calça social. Provavelmente as vendas no circo não iam tão bem para suas altas expectativas, especialmente vindo de uma região tão simples quanto a Ilha Melemele. O povo dali não tinha dinheiro para eventos sofisticados, e a maioria dos turistas já assistiu ao show na primeira semana.
Hal retomou sua busca por Popplio esgueirando-se entre cortinas e caixotes quando encontrou um lugar que mais parecia uma enorme jaula. Havia dezenas de Pokémons presos entre grades de ferro, o circo fazia parecer que a relação entre treinador e Pokémon vinha em primeiro lugar, mas não agiam conforme seu slogan.
Popplio estava em um canto escuro quando Hal a chamou e esticou o braço em sua direção.
— Essa não! Como fui deixar isso acontecer?
A Senhorita Chefe sequer retribuiu seu chamado. Ela não compreendia que seu treinador a deixara ali para seguir um sonho. Sentiu-se trocada, traída. Hal enxergou aquilo nos olhos dela.
Ele cerrou os punhos, furioso. Não acreditava como pôde ser tão idiota. Tinha de sair correndo dali e pedir ajuda para alguém, a polícia, sua irmã, Dylan, qualquer pessoa. Em sua pressa, acabou derrubando diversos caixotes que rolaram e se espatifaram no chão, misturando alimento e ração com fantasias em um emaranhado imundo na saída, o que chamou a atenção dos três executivos que discutiam ali perto.
Hal olhou para todos os lados e avistou apenas a Tsareena que agora o encarava, assustada. Por um instante, ambos enxergaram o sofrimento um do outro. Foi como se compartilhassem toda sua história com apenas um olhar. A Tsareena levantou-se e foi o mais perto dele até onde suas correntes permitiam, indicando com o braço que o garoto deveria ir embora. Hal não pensou duas vezes e saiu dali imediatamente, mas teve tempo de ouvir o dono do circo berrar:
— Foi você quem fez essa bagunça, sua imprestável?! Tratem de punir essa serviçal, e arrumem essa baderna, seus idiotas!
— Eu já estava sentindo falta disso — respondeu a voz do palhaço Wilson, seguida do forte estalo de um chicote em contato com a pele.


Não havia a quem recorrer. Estava brigado com sua irmã — e isso incluía Dylan — logo não fazia muito sentido pedir socorro algum para o Barão Maximiliano e sua esposa. Kailani precisava de seu espaço e não seria uma boa ideia chama-la, já Ika e Uko, bem, talvez tivessem alguma experiência na área de roubar outros criminosos.
Uko puxava o barco pesqueiro de volta para a costa com Ika e Hal em cima. A pesca fora terrível e não lhes rendera nada além de cocô de Wingull e queimaduras de Tentacool.
— Então tu tá meio que planejando um resgate — concluiu Ika depois de ouvir toda história.
— É uma emergência, vocês são os únicos que podem me ajudar — suplicou Hal.
— Eu tive uma ideia show de bola! — Ika começou a empolgar-se como sempre fazia quando dizia ter um de seus insights. — Só que isso envolve roubar um caminhão antes...
— Pode ser o caminhão do trabalho? — perguntou Uko. Aquele era um claro sinal de que eles estariam deixando seu emprego na primeira semana de trabalho. Talvez por isso eles jamais encontrassem algo decente.
— É o nosso irmãozinho que está precisando de ajuda! Nós vamos fazer o possível, cara. Sobe no busão!
Hal subiu no caminhão da empresa e juntos eles partiram imediatamente em direção ao circo para punir os torturadores e salvar os Pokémon dos humanos maldosos. Hal espremia-se entre Ika e Uko nos bancos da frente, a estação de rádio tocava um rap da pesada e cada batida da música era um impacto que o automóvel causava.
Era a primeira vez na vida que Hal participava de uma missão tão importante, queria provar que não precisava mais de sua irmã. Podia muito bem se virar sozinho.
O caminhão chegou causando — pessoas e Pokémons se assustaram com o enorme veículo que empurrou tendas e derrubou jaulas pela extensa planície onde a tenda do circo fora construído. Hal perguntava-se se Ika realmente tinha uma carteira de motorista, porque ele dirigia como alguém que só tinha experiência com carrinhos de bate-e-bate nos parques de diversão. O dono do circo saiu seguido dos dois palhaços e espantou-se com o caos que se alastrava. Um caldeirão de alimento na cozinha fora derramado, o que acabou ateando fogo em alguns caixotes e na palha deixada no vagão logo ao lado.
— Mas que diabos está acontecendo aqui?! — berrou o homem.
— Deixa com a gente, chefe — respondeu Wally, sacando uma pokébola.
— Só não garanto que poderemos continuar nessa ilha depois do que rolar aqui hoje — continuou Wilson com uma expressão sombria, jogando seu cigarro no chão e apagando-o com o sapato envernizado.
Ika dirigia tão loucamente que pensava estar em um vídeo game antes mesmo dos vídeo games serem lançados. Ele só parou quando por algum motivo o acelerador não funcionou mais e a embreagem pareceu travar.
— O que tá acontecendo? — perguntou Hal, desesperado.
— Sei lá, acho que acabou a gasolina... Tu colocou gasolina antes da gente sair, Uko?
— Coloquei sim.
Quando Hal olhou pelos retrovisores, havia um enorme Machamp que levantava o caminhão com a força de seus quatro braços. O garoto abriu a porta e jogou-se lá de cima junto de seus amigos a tempo do Pokémon lutador arremessar o caminhão longe sem a preocupação de ferir seus passageiros.
Antes mesmo que se levantassem, um Golem passou girando com ferocidade para que eles não pudessem escapar. Qunado o homem de cartola chegou ele carregava uma expressão sádica em sua face, como se estivesse prestes a iniciar um espetáculo de horror.
— Olha só o que temos aqui, se não é o dono da nossa pequena celebridade! — falou o chefe.
— Pensei que já tivesse se esquecido de mim — resmungou Hal. — Devolvam a minha Popplio!
— À vontade. Por que não pediu antes? Precisava mesmo ter causado todo esse alarde? — disse o homem com certo desdém. — Aquela criatura é um desastre! Não respeita as regras e nem sabe trabalhar em equipe, quer sempre estar no centro do espetáculo como se tivesse nascido para isso! Não havia necessidade de causar todo esse tumulto em nosso tão estimado Sunset Circus...
O dono do circo voltou-se para Hal de forma assustadora e deu continuidade:
— Mas agora que vocês já causaram... acho que terão de pagar de outra forma.
— Cai dentro, maluco! — respondeu Ika, erguendo os punhos e socando o ar enquanto saltitava no mesmo lugar feito uma gazela. Era como um Hitmonchan magrelo e sem músculos. — Acabo contigo e todo seu exército, aposto que não aguenta dez minutos de porrada comigo! E aí, vai encarar?
O Machamp grunhiu e mostrou os dentes, a essa altura Ika já estava escondido atrás de seu irmão.
— Uko, tu vai ter que seu meu Pokémon hoje. Acaba com eles!
O gigante concordou com a cabeça. Agachou, pegou um pedregulho no chão menor que seu dedão e jogou-o contra seus oponentes. A pedra quicou no Golem que nem sentiu o impacto do Rock Throw de seu inimigo.
— Isso que dá treinar seus Pokémon sem Effort Value... — murmurou Ika.
Os palhaços deram a ordem do Machamp e do Golem atacarem. Aqueles Pokémons agiam com uma ferocidade que exalava toda a raiva que sentiam de humanos e treinadores. Se pudessem destruir qualquer um em seu caminho, o fariam. Uko protegeu Hal com seus braços no instante em que um forte Rollout o acertou, se ele não fosse uma montanha de músculos resistentes aquele golpe poderia ter sido fatal para uma criança.
— Deixe meus amigos em paz! — berrou Hal.
— Foi você quem perturbou a nossa paz primeiro. Agora vamos fazer da sua vida um inferno — disseram Wilson e Wally.
O rolo compressor do Golem já fazia seu caminho de volta quando uma enorme sombra cobriu o sol. Hal olhou para cima e avistou um Drampa que voava pelos céus até aterrissar na planície. De lá de cima saíram Izrael, Dylan e sua irmã Miliani, tão furiosa quanto um Gyarados Vermelho no Lago da Fúria.
— Senhor Hala Kameahookohoia, eu sabia que tinha visto o senhor dentro daquele caminhão! Então decidiu fugir de casa para divertir-se com seus colegas? Custava deixar uma carta? Custava avisar? Por que você faz isso comigo, Hal? É por isso que não posso deixa-lo sozinho, sei que vai se meter em confusão e envolver todos nós nessa história! Por que você sempre faz isso?
— Isso é uma equipe de resgate? — perguntou o dono do circo.
— Só tô aqui pra dar carona — respondeu Izrael num sinal tranquilo. — E porque disseram que ia ser... irado.
— É! Eu não sei o que está rolando aqui, mas parece divertido! — respondeu Dylan, sacando uma pokébola de seu short. — Está na hora de mostrar a todos vocês a minha arma secreta que estou esperando para revelar desde o primeiro capítulo! Vai, Wimpod!
Uma pequena criaturinha surgiu no meio do campo de batalha. Era um Pokémon nativo de Alola que Dylan provavelmente capturara quando foi surfar próximo às rochas distantes do litoral. Era um artrópode de coloração lilás e uma dura carapaça nas costas, ele tinha perninhas minúsculas escondidas por debaixo de sua armadura e se movia lentamente na terra. Quando ficou de frente ao Machamp e o Golem com sua aparência ameaçadora, imediatamente correu e se escondeu entre as pernas de seu dono.
— Ih, rapaz... Eu devia ter treinado ele mais. Disseram que a evolução é maneira — comentou Dylan.
— Vai dizer que você não tem mais nenhum Pokémon? — retrucou Mili. — Você morou a vida inteira em Hoenn, não treinou nenhum Aggron ou Metagross nesse meio tempo?
— Eu tenho um Makuhita, mas deixei ele em casa. Gostamos de surfar juntos de vez em quando.
Os dois palhaços estavam acostumados a dar o show, mas era a primeira vez que outros se faziam de ridículo em seu lugar.
— Wilson, nós poderíamos nos apresentar com esses caras! Ia ser a melhor piada da história! — falou Wally.
— Eu não trabalho com outras pessoas, só você — respondeu o outro, sério.
— Poxa, daria um bom número...
— Podemos acabar logo com isso?
Hal e seus amigos agora estavam encurralados por todo um elenco furioso com a destruição causada em sua base. A estrutura do circo fora completamente destruída e Pokémons corriam livremente por aí. Em meio ao caos, o pequeno Bidoof colocou-se de frente aos seus agressores para proteger aqueles humanos.
— É o Mimikyuu! — gritou Dylan.
— Não, cara, era só um Bidoof disfarçado, você não tinha entendido? — perguntou Hal.
— Ah, tá.
O Bidoof rosnava furioso, mas não havia muito que ele pudesse fazer contra criaturas tão violentas. O dono do circo já estava cansado daquela baderna.
— Acabem logo com eles. Já estou farto dessa ilha miserável nesse continente esquecido pelo civilização!
Neste instante, uma misteriosa força pareceu impedir o Machamp e o Golem de atacarem. Era como se existisse uma barreira invisível na frente deles. Ao se derem conta, a Tsareena havia se libertado e ela agora tinha companhia. O Mr. Mime e o mímico auxiliavam na luta, e para a surpresa de todos, Kailani estava ali com Salandit em seu ombro e a Popplio muito ferida no colo. Montada em um formoso Mudsdale, o cavalo galopava radiante, como se ela fosse a rainha daquelas terras.
— Ninguém chama a minha Alola de continente miserável.
— Kailani! — disseram Hal e Mili alegremente.
— Michael, o que pensa que está fazendo? — indagou o homem de cartola.
— Desculpa, chefe, mas eu sempre odiei os métodos como vocês tratavam os Pokémons e não vou permitir que isso continue — respondeu o mímico.
Kai era a única treinadora experiente dentre todos ali presentes, ela ordenou que o Mudsdale usasse um poderoso Earthquake e toda a terra começou a tremer. As pessoas entraram em pânico e o caos espalhou-se, dessa vez a estrutura do circo desabou por completo e os Pokémons entraram em um frenesi.
— Todos a bordo do dragão da sorte! — berrou Iz, referindo-se ao seu Drampa.
Mili quis que seu irmão fosse o primeiro a embarcar, mas Hal recusou-se.
— E a Kai? Não podemos deixa-la sozinha!!
— Apenas suba! — Mili respondeu apressada. — Eu mesmo vou salvá-la.
O terremoto fora forte o bastante para derrubar o Golem, mas o Machamp continuava de pé. Kailani agora enfrentava o Pokémon lutador com seu Mudsdale, mas aquele Machamp batalhava como se sua vida dependesse disso. Wilson acendeu outro cigarro quando encarou o estado de preocupação de seu adversário.
— Garota, você fodeu com a minha vida — disse o palhaço calmamente.
— Estou acostumada a isso — respondeu Kai com um sorriso sarcástico.
— Eu só quero que saiba que não vou pegar leve porque você é uma mulher.
— Querido, eu não preciso que você pegue leve comigo. Sou eu quem decide se vou pegar leve com você.
O Mudsdale fez uma investida com ferocidade e o Machamp bloqueou o alazão com seus próprios braços. Mili assistia a batalha de longe, mas sabia que sua amiga não resistiria muito tempo. Hal saltou do Drampa e correu em direção das duas.
— O que está fazendo, cara? — gritou Dylan.
— Minha vida está ali! Minha família! Elas são tudo que eu tenho!
Quando Hal gritou, a atenção de Kai claramente desviou-se da batalha. Wilson notou que aquela criança tinha certa influência sobre ela, e adorava especialmente mexer com o ponto fraco das pessoas.
— Machamp, mude o foco da luta. Acabe com aquele menino.
O Pokémon lutador avançou de forma violenta contra Hala, mas uma pequena figura saltou de sua mochila e jogou-se contra o punho furioso da criatura. Era o Exeggcute que estivera o tempo todo ali escondido, quando viu que seu dono estava em perigo ele o protegeu, exatamente como o grande Exeggutor os protegera no dia da tempestade sem ser esperado. O Machamp despedaçou a criaturinha que não resistiu a um golpe tão poderoso e todos entraram em choque
— Barão, por que você me protegeu? Por quê?! — Hal gritou. — Por que você deu a vida por alguém como eu?!
O Exeggcute solitário o encarou com metade do rosto quebrado e Hal sentiu como se pudesse ouvir uma voz misteriosa em sua mente.
“Somos nós que escolhemos nosso destino.”
A casca do Exeggcute se desfez em sua mão. Wilson os encarava de longe no meio das chamas como um arauto maligno, Hal nunca imaginara que um palhaço poderia ser tão macabro.
— Seu Pokémon virou ovo frito — disse Wilson, rindo de sua própria piada.
— Ele não era só um Pokémon — murmurou Hal —, ele era meu amigo.
Hal retirou então a Leaf Stone que ganhara do Tio Max, o mesmo homem que o inspirou a nomear seu amigo Exeggcute. Não sabia se funcionaria, mas encostou mesmo assim a pedra nos restos mortais da criatura que no mesmo instante foi coberto por uma luz branca e seu corpo aumentou de tamanho. O Barão transformou-se em um gigantesco Exeggutor, com um pescoço longo e patas enormes. Era um dos maiores Pokémons que já vira, e o povo de Alola costumava dizer que aquela era a forma original dos Exeggutor que só diminuíam de tamanho por não viverem em condições adequadas.
Hal sentiu seu corpo ficar leve, o mesmo aconteceu com Kailani e Miliani. Alguma força psíquica os afastava da luta até onde o Drampa os aguardava para sair dali o mais rápido que pudesse.
— Eles estão fugindo! Acabem com eles! — berrou o homem de cartola.
Mas o Exeggutor era muito poderoso e sozinho pretendia acabar com tudo que restara daquele circo tortuoso. Hal pegou Bidoof no colo, outros Pokémons como a Tsareena também subiram a bordo. Iz só desejava que seu dragão da sorte fosse forte o bastante para carregar todos para longe dali.
Hal berrou alto o nome de seu Pokémon, mas o Barão se recusava a acompanha-los.
“Obrigado, amigo. Até a nossa próxima apresentação! Talvez demore muito tempo até que voltemos a nos encontrar, quem saber até uma eternidade, mas nunca se esqueça do show que viu aqui hoje!”
O Drampa disparou rumo ao céu, deixando para trás um rastro do brilho forte onde antes existiu o Sunset Circus. Ouviu-se uma explosão intensa seguida do som de sirenes da polícia e dos bombeiros que percorriam a estrada na direção oposta. Hal sentiu-se culpado, nunca era capaz de resgatar a todos, alguém sempre saía ferido. Prometeu a si mesmo que cresceria e se tornaria forte para proteger aqueles que precisassem de sua ajuda.
Iria se esforçar para um dia ser como um guardião para a ilha. Um kahuna.

   

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