Ohana Dreams (Capítulo 12)

Era a época mais quente do ano, a região de Alola nunca esteve tão cheia de turistas e grandes treinadores vindos de fora, era como se por um instante aquele conjunto de ilhas isoladas em algum lugar do oceano subitamente voltasse para os mapas e todas as pessoas do mundo decidissem passar as férias de fim de ano no paraíso.
Um velho senhor saiu para a varanda abanando o rosto, sentou-se em sua cadeira de balanço que rangeu com seu peso, depois tirou os chinelos e esticou as pernas sobre a mesinha de centro. Ligou um rádio bem antigo um presente de uma amiga estimada —, mas o aparelho estava tão acabado que demorou a funcionar. Nunca aprenderia a mexer naqueles novos equipamentos eletrônicos, não substituiria por nada suas antigas preciosidades. Após dois tapas, o rádio ligou em uma estação de músicas antigas e o velho foi tomado pelo alívio, relaxando em frente ao mar.
Verão de 76. Aquela música trazia algumas boas lembranças.
Passara uma vida inteira apreciando aquela paisagem, agora que já completara meio século de vida concluiu que jamais se enjoaria dela.
A tranquilidade foi perturbada quando um jovem de cabelos esverdeados apareceu correndo pela estrada com sua mochila nas costas. Sua inquietação era tamanha que ele embaralhou-se todo em suas palavras, sem saber se corria para não perder o horário ou se se despedia de forma adequada de sua família.
— Vovô, estou saindo com meus amigos! Nós vamos ao aquário da ilha vizinha em uma excursão da escola! — o garoto saiu correndo no mesmo instante, depois voltando ainda apressado e foi direto para dentro de casa. — Será que a vovó preparou algum lanche para a viagem? Será que estou esquecendo alguma coisa? Droga, por que fui deixar tudo para última hora?
— Aproveite a viagem— respondeu o velho com uma risada. Sempre se divertia muito com as visitas do neto.
Hau carregava duas sacolas de comida suficiente para um batalhão inteiro. Apesar da pressa, deu meia volta e lembrou-se de dar um beijo no rosto de seu avô antes de seguir na viagem.
— Eu te amo, vovô. Obrigado por estar passando as férias de verão comigo!
Uma senhora observava da varanda, ela tinha quase 70 anos, mas não demonstrava nem metade de toda aquela idade. Ainda era forte e saudável, devia ter sido de uma beleza invejável no passado.
— Eles estão indo para o aquário — o velho fez que sim com a cabeça e a senhora deu um sorriso. — Eu ainda me lembro de quando eu trabalhava lá.
— Foi onde nos conhecemos a primeira vez, Alikia. Você ficava linda naquela roupa de mergulho, mas demorei para criar coragem e te contar.
— Você nem tinha idade para dar em cima de uma mulher velha, seu bobinho.
— Tudo acontece ao seu tempo — o velho homem riu. — Hoje tenho sorte de ter-me casado e tido filhos com uma mulher honesta e gentil como você.
— Eu ainda me lembro daquela sua Popplio que você não sabia que era fêmea.
— É... A Senhorita Chefe. Faz tanto tempo...
Sua esposa voltou para a cozinha, estava assando uma lagosta deliciosa para um jantar especial à noite, por isso pediu que uma Tsareena a ajudasse nos preparos.
— Candy, poderia ir até a padaria para comprar alguns ingredientes para mim? Hoje à noite nossa sobrinha Phoebe vai chegar, quero que ela aproveite ao máximo sua estadia.
Aquela linda Tsareena era a mesma que um dia fora resgatada após o incidente no Sunset Circus. Ela continuou a viver com a família Kameahookohoia por mais de quatro décadas, e ainda esbanjava charme apesar de algumas de suas flores terem perdido o brilho rosado.
A Tsareena saía de casa com seu dinheirinho contado quando um carteiro apareceu de bicicleta e a cumprimentou de relance. O velho sentado na cadeira o viu de longe, mas não fez muita questão de levantar-se.
— Senhor Hala Kameahookohoia? Encomenda para o senhor.
O velho fez um sinal com a mão para que o carteiro deixasse as cartas e o pacote em frente à casa. A maioria delas eram contas, mas havia surpreendentemente uma pertencente à sua irmã Miliani.
Fazia anos que não a via, a última vez devia ter sido há pelo menos três anos quando sua família visitou Alola nas férias de Janeiro. A carta demonstrava a clara preocupação de uma irmã mais velha que, mesmo após tanto tempo, sempre se preocuparia com seu irmãozinho onde quer que ele esteja. Junto do envelope havia também uma linda foto da família completa: Miliani, seu marido Dylan e a filha Phoebe.
— Olha só como cresceu... — falou Hal, sorrindo ao observá-la.
Sua irmã se casou com Dylan e teve uma filha que tornou-se não apenas uma treinadora competente, mas uma integrante da Elite dos 4 na região de Hoenn. Alola nunca teve uma Liga Pokémon, então Hala não compreendia muito bem como funcionavam as responsabilidades de um integrante, mas sabia que sua sobrinha fazia questão de tirar um tempo de folga para descansar com o tio em Alola.
Mili ainda vivia em Hoenn com seu marido, ela raramente saía de casa agora. Já estava velha e viajar de avião se tornara uma tarefa complicada, gostava mandava cartas para o outro lado do mundo e dizia com insistência como sentia falta de sua juventude e infância naquele lugar.
Após terminar de ler a carta, pegou o pacote e logo pensou tratar-se de uma pedra ou artefato raro que Dylan adorava enviar em nome da Corporação Devon. Hala sempre gostou de colecionar quinquilharias, mas já passara grande parte da coleção para o neto Hau que fazia melhor uso daqueles artefatos como treinador — nunca imaginou que passar tanto tempo no oceano juntando Heart Scales seria de alguma utilidade! O pacote era pesado e muito bem embalado, como se sua carga fosse da mais importante prioridade. Ao abri-lo, seu coração disparou ao perceber que havia um ovo Pokémon ali dentro. Junto dele havia uma nota escrita por Miliani:

“Ei, maninho. Como é que você tem passado?
Mês passado a Phoebe nos convidou para ir ao circo, ela sabe como eu adoro, mas para ser sincera nunca mais visitei nenhum desde aquela nossa triste experiência (ainda tenho a impressão de que eles maltratam os Pokémon em segredo), mas dessa vez fui convencida do contrário. Nesta apresentação, me surpreendi com o fato de que havia uma Primarina como artista principal, e adivinhe, era a Senhorita Chefe, a própria! Exatamente a mesma Popplio que você tinha quando era criança. Ela cresceu e se tornou um Pokémon belíssimo. Fico feliz que você a ajudou a seguir seu sonho, as aulas de teatro valeram a pena, tenho certeza de que ela realizou todos seus anseios.
O nome do circo onde a Chefe trabalha chama-se “O Emblema do Oceano”, eles passarão uma temporada em Kanto e disseram-me que logo estariam em Alola. Você precisa ir assisti-la. A Chefe ficaria orgulhosa. Semana passada fui surpreendida por um dos organizadores do circo que me entregou este ovo, ele disse que a Primarina gostaria que eu ficasse com um filhote dela, como agradecimento por todos os cuidados que prestamos. Fiquei muito surpresa com o fato dela lembrar-se da gente, até chorei de emoção e peço desculpas por isso, sei que você não suporta me ver chorar. Quero que você cuide desse pequeno Pokémon que virá a nascer como se fosse de nossa família, aposto que meu sobrinho Hau iria adorá-lo, ou quem sabe algum treinador em quem você confie com todo seu coração. Tenho certeza que você saberá.
Beijos para todos!
Comporte-se.
Mili”.

Hala ficou tão emocionado com a surpresa que todas as lembranças de sua infância de repente vieram à tona: tomar sorvete na VaniDelluxe e escolher um dentre tantos sabores diversos; infiltrar-se no Esconderijo de Ika e Uko para conseguir alguns trocados; voar nos costas de um Drampa; almoçar com sua família; mergulhar na Baía do Rei... Que tempo bom! As lembranças boas superavam todas as ruins.
Hoje a sorveteria já não existia mais. A construção deu espaço para um prédio luxuoso que recebia turistas.
O majestoso Mantine da Baía do Rei partiu em sua migração para as águas quentes de Hoenn e nunca mais voltou, mas deixou para trás seus filhotes, diversos Mantykes que um dia viriam a crescer e se tornariam tão grandiosos quanto o Rei original.
Ika e Uko levaram a vida intensamente, como sempre fizeram. Arranjaram muita confusão e até mesmo tentaram alguns trabalhos aqui e ali. Foram os amigos mais próximos de Hal até o fim, fizeram muitas visitas aos sábados e foram motivo de muita risada com suas histórias e enrascadas. Uko morreu do coração um ano antes de seu irmão Ika que faleceu de uma estranha doença no cérebro. Era triste pensar que seus dois amigos de infância partiram tão antes dele, mas Hal se conformava quando os imaginava em algum lugar no céu comendo pizza de pepperoni à vontade e brincando com Dia.
Hala também teve de se despedir de seu Rockruff quando ainda era moço. Nunca aceitou completamente o fato de que os animais tinham de partir tão cedo. O pequeno Diamante foi enterrado em uma colina distante que mais tarde foi apelidada de Ten Carat Hill, seu túmulo ficava muito florido na primavera.
Kailani continuou o resto de sua vida na ilha. Ela pegou muitas garotas e teve muitos relacionamentos intensos, mas nenhum deles foi duradouro. Quando sua irmã foi embora para Hoenn, foi Kailani quem cuidou de Hal como se fosse um irmãozinho e nunca deixou de estar ao seu lado. Mesmo depois de velha ela continuava linda, procurava manter-se sempre em forma e saudável, tinha a disposição de uma jovem e ainda causava invejava nas mais novas.
Até que um dia a morte a levou. Hala nunca quis saber o motivo.
Ainda se sentia culpado por ter contado que sua irmã e Dylan se beijaram numa noite qualquer. Era como se ele fosse o responsável por ter acabado com o amor mais bonito e sincero já visto, talvez hoje as duas ainda poderiam estar juntas e ele teria ambas para sempre ao seu lado, onde estariam protegidas  afinal, juntas elas eram invencíveis  mas quando separadas, era como se toda a força se seguisse numa direção oposta até se romper. Já faziam 5 anos desde o enterro. Quando era menino, costumava acreditar que Kai e Mili eram como sol e lua, e sempre estariam lá em cima não importa quanto tempo passe; mas mesmo os astros no espaço um dia deixam de brilhar. Sentia falta de muitas coisas nessa vida, mas nada se comparava à falta que sentia delas.
 “Kai, você é a mulher mais linda que já conheci. Você foi a maior inspiração para minha vida”, lembrava-se de ter dito em seu enterro, só nunca se desculpou por nunca falar isso a ela quando ainda era viva.
Hala acariciava o ovo em seu colo quando murmurou para si mesmo:
— É... O tempo passa...
Estava ficando velho, sua função nessa história estava para terminar. Talvez tudo que passou ao lado das pessoas era o que importava. Sua Ohana. Teve uma vida simples, mas muito feliz.
Ainda naquela noite, Phoebe chegou de avião para a visita aos seus tios. A Dona Alikia preparou um jantar com muito capricho, talvez tantos anos trabalhando no aquário a ensinaram a saber como escolher os melhores peixes para servir.
Os quatro se sentaram à mesa e conversaram durante horas, Phoebe compartilhava suas experiências como membro da Elite e Hau se encantava com a ideia de que ainda naquele ano estaria finalmente começando sua jornada como treinador.
— E então os Wishiwashis se juntaram e se transformaram e uma forma gigantesca e monstruosa! Como isso é possível? Um bichinho tão pequeno se tornar algo tão ameaçador?
— Os Wishiwashi se juntam em cardumes como forma de proteção, querido — explicou-lhe sua avó. — Mesmo pequenos e inofensivos, quando trabalham em grupo são capazes de derrubar até mesmo a maior das barreiras.
— Visitar o aquário foi incrível, mal posso esperar pela próxima — animou-se Hau, dando uma garfada em sua lagosta. — Ei, Phoebe, pode passar o refrigerante?
Sem que ela movesse um dedo, a garrafa misteriosamente levitou no ar e foi em direção do copo. Hau sorriu encantado, sempre se divertia com aqueles truques feitos pelos Pokémons fantasmas de sua prima.
— Isso é tão maneiro! Um dia quero ser forte que nem você!
— Ah, vocês não fazem ideia de como é exaustivo trabalhar na Liga... — disse Phoebe com um suspiro. — Tenho que aguentar aquele mala sem alça do Sidney o tempo inteiro, sem contar os compromissos constantes, acho que fico mais tempo sentada do que treinando Pokémons fantasmas... Tem dias que não sinto meus pés. Mas pelo menos agora estou aqui com vocês, e isso faz tudo valer a pena!
Hau comia com gosto quando percebeu que seu avô estava estranhamente quieto.
— Vovô, aconteceu alguma coisa? Como posso te animar?
Hala sorriu, porque algumas vezes os mais novos não entendem o motivo dos velhos ficarem tanto tempo em silêncio.
— Só estava pensando em algumas coisas. E como está sua mãe, Phoebe?
— Ah, cansada, como sempre... Ela sente muita falta de Alola, mas agora o trabalho não dá nenhuma folga. Ela disse que assim que se aposentar vai passar um tempão aqui com o senhor, nem que para isso precise deixar o Dylan em Hoenn para que ele cuide dos negócios da família. Ela precisa mesmo é de um banho de água salgada, para se limpar de todas as impurezas. Mamãe tem andado muito estressada...
— Sua mãe é forte. Ela aguenta — respondeu Hala, tomando um gole de seu drink antes de ser novamente interrompido por seu neto que não parava de falar.
— Vovô, quando é que você vai começar a entregar os iniciais para os novos treinadores que estarão chegando em Alola? Eu vou ganhar um também? Posso escolher ou vou ter que ficar com o que tiver desvantagem?
— Em breve, meu garoto, em breve. Houve um pequeno atraso porque eu ainda estava me decidindo qual seria o inicial aquático, mas acho que já o encontrei.
— E quem são os treinadores que estarão se mudando para cá? Eles são legais? É um menino ou uma menina?
O velho Hala riu e bagunçou os cabelos do menino.
— Você faz perguntas demais, mas em breve vai ter uma resposta para cada uma delas. Por hora, vão se trocar e se preparem para o rito de passagem do ano. A Phoebe vai dançar lá em cima com direito a show de Marowaks e muita comida!
— O senhor vai dançar também, vovô?
Alikia riu só de imaginar a imagem de seu marido dançando com todo aquele peso.
— Estou meio velho para essas coisas, ai, ai, minhas costas...
Hala aprendeu com sua irmã que um lar só recebe esse título quando as paredes já são cheias de marcas e rabiscos que registram o crescimento das crianças, xícaras e pratos com lascas quebradas, e muitos quadros repletos de saudade na sala.
Muitos anos se passaram até que ele compreendesse que “lar” nem sempre é um lugar, pois pode muito bem ser alguém — pessoas para quem seu coração se dirige quando se está cansado, amigos que o acolhem independente de onde estiver. Talvez por isso sempre sentiu um estranho aconchego diante de seu “lar”, não importa aonde esteja, seja num universo existente ou não, nesta ou vida ou em outra. Todas as coisas mais importantes são tão simples que podem ser expressadas em palavras como amizade, amor, afeto, carinho e família.
O Sr. Hala nunca deixou de acreditar nelas.

Ohana Dreams (Capítulo 11)

O mar parecia estranhamente manso naquele dia, era como se descansasse após um longo período de tormenta e tempestades. A varanda da casa do Sr. e a Sra. Maximiliano dava de cara com o enorme manto azul, o terreno fora escolhido especialmente por conta daquela vista. Agora que Popplio tinha um tempo para refletir, sentiu saudade de sua casa e de sua família. Por um instante, Treinador e Pokémon não pareceram tão diferentes um do outro.
Não demorou para Hal logo chegasse trazendo dois copos com suco de Oran Berry e uma revistinha dos X-Men debaixo do braço. Ele sentou-se ao lado de Popplio e esticou a rede, onde acomodou-se e começou a folhear sua história. Os dois compartilharam um longo período de silêncio, o Pokémon continuou quieto, até que o garoto decidisse falar:
— Aquele circo mexeu com você, não é mesmo?
A Popplio fez que sim com a cabeça. Hal respirou fundo, fechou a revista e ofereceu o outro suco para sua companheira.
— Você sente falta da sua casa? Gostaria de voltar para seus pais?
Ela fez que não.
— Às vezes a vida parece perder o sentido e é difícil saber para onde seguir... Mas você ainda sente que a arte é para você.
Popplio estava muito chateada com todo o ocorrido, não pelo sentimento de ter sido quase abandonada, pois sabia que as intenções de seu treinadores eram as melhores sentia-se decepcionada consigo própria por não ter sido capaz de mostrar o seu melhor e nem que o mundo a conhecesse. Tinha tanto a oferecer, mas nenhum público para apreciar...
O Pokémon esticou as nadadeiras, como se pedisse colo. Hal a acomodou em cima de sua barriga e dois passaram várias horas na varanda, sentindo a brisa fraca e o cheiro salgado vindo do oceano.
— Por que você não participa das aulas de teatro comigo na escola? É sério, talvez você goste — sugeriu o garoto. — Não é nada grandioso, mas eles permitem Pokémons e aposto que você daria um belo show em qualquer um dos novatos. Começar debaixo é sempre uma boa ideia, não dá para escalar uma montanha pelo pico.
Popplio pareceu gostar da ideia, tendo sua cabeça afagada.
— Daqui alguns anos espero estar sentado em uma varanda como essa, bebendo um delicioso Berry Juice e ouvindo música, contemplando o mesmo céu e oceano... É importante sabermos aonde nosso coração pertence.


Alguns dias se passaram desde o incidente com o Sunset Circus. Hal nunca se esqueceu do grandioso Exeggutor que o salvara duas vezes na vida, pediu de todas as formas que seus amigos o ajudassem a encontrá-lo, já retornara pela terceira vez às planícies onde ocorreu e a batalha e o circo estivera alojado, mas não havia nada além de destroços e vestígios.
Dylan lhe contou que o pessoal do circo saiu impune de toda aquela história, disseram à polícia que foram atacados por Pokémons selvagens, que foi uma tragédia tremenda para seus negócios e nunca mais voltariam para Alola, retornando assim para sua terra natal nas Ilhas Laranja onde fariam novas vítimas aprisionando mais Pokémons, mas enfrenta-los a essa altura estava completamente fora de seu alcance. Um dia eles pagariam por toda a maldade cometida.
O Tio Max ficou muito triste quando soube da notícia, mas exatamente como na primeira vez que os conhecera, acreditava que aquele Exeggutor tinha como propósito em vida proteger aqueles que considerava sua família, e por isso eles tinham de honrar sua escolha.
Muitos dos Pokémons selvagens do circo fugiram, outros foram resgatados e entregues a novos lares que lhes dessem amor e carinho. O Bidoof foi o primeiro a ser adotado por uma família com uma criança de colo. Foi amor à primeira vista — nunca tinham visto um Bidoof e achavam aquele castor muito engraçadinho. Ele seria uma ótima companhia para seu filho, assim eles compartilhariam fortes laços conforme a idade avançasse.
A Tsareena servira os donos do circo desde que era um Bounsweet, praticamente toda a sua vida, por isso nunca compreendeu completamente o fato de que estava livre. Durante a semana que se seguiu ela divertiu-se com Camille e as outras serviçais do Barão, mas Tio Max e sua família não queriam nenhum outro Pokémon trabalhando para eles.
— Por que não fica com ela, Hal? — sugeriu Dylan. — Vamos lá, você leva jeito para cuidar de Pokémons, aposto que ela será sua companheira para toda a vida!
Hal concordou e a nomeou como Candy. Ao contrário de muitas Tsareenas da espécie que possuem gostos refinados e preferem ser tratadas como rainhas, Candy era humilde e preferia a simplicidade e o carinho de seus treinadores.
Muita coisa aconteceu na semana que se seguiu. Kailani e Miliani ainda estavam brigadas, elas não conversaram nenhuma vez desde o resgate, mas era hora de mudanças na vida dos Kameahookohoia e elas não tardaram a vir:
— Nós vamos voltar para Hoenn! — Dylan falou com entusiasmo aquela manhã.
O Sr. Stone, o fundador da Corporação Devon, interessou-se muito pela descoberta da carcaça de um Minior feita por Hal e Dylan nas montanhas de Melemele. Os cientistas da região poderiam estudar o material mais a fundo, acreditavam que com alguns exemplares e o crescente avanço da tecnologia logo seriam capazes de reviver Pokémons fósseis. Foi feito um pedido de que o Barão e sua família retornassem imediatamente com o precioso tesouro.
Dylan caminhava com Miliani e seu Hal pelos jardins da mansão quando contou-lhes toda a história e a súbita decisão.
— Eu quero muito que vocês venham comigo — frisou o rapaz. — Vocês dois.
— É difícil, Dylan... — Mili parecia preocupada. — Digo, nossa vida toda está aqui. Emprego, casa, amigos...
— Tenho certeza que você encontraria um emprego, Mili, você é muito inteligente e esforçada, podemos fazer isso juntos! Até hoje eu não havia encontrado um motivo sólido para assumir uma posição na Corporação Devon, mas se eu conversar com meu pai ele me aceitaria de muito bom grado. Você poderia começar a faculdade de moda que sempre quis, somos jovens, temos todo o futuro a nossa frente!
— Eu não sei... — a moça parecia muito confusa e assustada. O mais longe que jamais chegara de sua casa eram as ilhas vizinhas de Alola. — É uma decisão muito súbita.
— Eu entendo, não se pode simplesmente abandonar a rotina assim de repente. Mas eu e minha família vamos partir no sábado de manhã, então por favor, considere até lá.
Quando Mili voltou ao seu quarto na mansão, ela soube que logo aquilo tudo estava para terminar. A mordomia, o aconchego — era chegada a hora de voltar para sua velha e confortável cabana destruída na beira do mar.
— O que eu faço, Hal? Quero muito ir junto com o Dylan, mas tenho minha vida toda aqui. A Kai não conversa comigo faz mais de uma semana, não tenho notícias dela, estou começando a ficar preocupada...
— Mili, e-eu tenho que te contar uma coisa...
 Hal ainda sentia a culpa de ter contado para Kai sobre o beijo, mas amava sua irmã com a mesma intensidade, por isso compartilhou sua versão da história.
Miliani sentou-se na beirada da cama no mesmo instante e o encarou com severidade.
— Você fez mesmo isso? Como pôde? Qual é o seu problema?! Você sabe que a Kai é a garota mais ciumenta do mundo, ela provavelmente vai pensar que esse beijo foi quase que nem sexo! Por Arceus, é por isso que ela tem me evitado!
Mili pensou em todas as possibilidades que aquilo causara, mas havia uma maneira de conseguir contatar sua amiga antes de Dylan ir embora.
Ainda naquele dia telefonou para o dono da Cabana do Luar e sugeriu que eles organizassem um evento especial para os turistas, como uma ritual de boas vindas às estações de calor. Seria feita uma grande festa no melhor estilo de Alola, com direito a cantoria, tochas e shows pirotécnicos. Tanto Mili quanto Kai trabalhavam ali, logo nenhuma delas poderiam faltar no emprego, então uma hora ou outra teriam de se encontrar.
— E quanto a você, senhor Hal, pare de meter o nariz aonde não deve — respondeu Miliani, enfezada. — Já a minha lição foi muito maior... Eu prometo nunca mais chatear ou decepcionar as pessoas que eu amo, se por ventura eu fizer isso, sinta-se livre para espalhar para meio mundo!
— Deixa comigo — respondeu o jovem, compartilhando um forte abraço com sua irmã.


Miliani prometeu que pagaria Ika e Uko com uma pizza de pepperoni se eles lhe dessem a localizassem de Kailani até o fim de semana. Eles a encontraram duas horas depois na sorveteria VaniDelluxe, tomando sorvete sozinha e desinteressada.
Mili disfarçou-se bem com óculos de sol e um daqueles chapéus cafonas. Ela sentou-se a mesa ao lado de Kai que imediatamente percebeu quem era e não conseguiu deixar de rir.
— Por Arceus, essas roupas de gringo são brega demais — falou Kai.
— Eu sei, peguei emprestado da Senhorita Renée.
— Se sua intenção era passar despercebida, não deu muito certo...
Mili revelou um sorriso de relance, tirou os óculos e o chapéu, mas ainda não conseguia encarar sua amiga nos olhos.
— E então... Como é que está?
— Bem. — Ela respondeu de forma seca. Nem ofereceu o sorvete. — E você?
— Também.
Era como se elas nunca tivessem se visto na vida.
— Vamos ter uma apresentação importante esse fim de semana, eu queria saber se você gostaria de ensaiar, e...
— Não tô afim. — Fez-se silêncio novamente, então Kai continuou: — Você é boa nisso, sabe os passos de cor. Não precisamos ensaiar.
Miliani ficou observando a forma como Kai lambia o sorvete de creme. Já sentia muita falta dela.
— Está esperando alguma coisa? — Kai perguntou de novo. — Não te vi pedindo nada. Ou talvez você tenha algo que queira me contar...
— Eu... acho que não.
— Não? — Kai fechou o punho na frente do seu rosto, como se desejasse que ela estivesse ali para esmaga-la. — Não minta para mim. Faça tudo, mas não minta.
Mili recuou assustada e mordeu os lábios para evitar chorar ali no meio da sorveteria, mas sua amiga levantou-se e saiu dali antes.
— Por favor, Kai, não vá! — suplicou Miliani.
— Caramba, garota, não dá pra resistir a essa sua carinha triste mesmo quando você faz uma merda daquelas!
— Me desculpa, Kai, foi errado da minha parte não te contar! Mas há tantas coisas acontecendo, eu não poderia ir embora sem conversar com você antes, só me dê uma chance!
— Ir embora? Aonde pensa que vai, você não sabe nem andar sozinha até o porto.
Kailani zombava até concluir que ela não viajaria de barco para nenhum lugar, porque seu destino estava longe, muito longe...
— Espera. Você vai para Hoenn com o loirinho, não vai?
— Kai, eu...
— “Kai, Kai, Kai!” Você só sabe falar o meu nome? Parece até que está gemendo... O que me lembrou daquela noite no ano novo em que meus pais me colocaram para fora de casa. Eu estava triste e desesperada, prestes a ter a pior noite da minha vida e começaria o ano me sentindo um verdadeiro Trubbish — disse Kailani, sua voz antes tão severa aos poucos diminuindo o tom. — Foi então que você me acolheu porque eu parecia um Rockruff sem dono... Seu irmãozinho preparou uma ceia deliciosa, nós estouramos refrigerante cheio de espuma porque não tínhamos grana pra comprar champanhe com álcool e ainda éramos menor de idade. Nós passamos a noite inteira juntas...
— Foi a melhor noite da minha vida — completou Mili, alegando que nunca se esqueceria daquele dia. Sua amiga começou a rir sem parar.
— Garota, você não me deu uma trégua nem por um instante! Onde é que tira esse apetite?
— Aprendi com a melhor.
As duas se encararam por um longo instante, separadas apenas pela calçada desgastada na beira da praia.
Mili correu e a abraçou, sentiu seu coração disparar ao perceber que Kai também a abraçava com tanta força que parecia nunca mais querer largar. Mili começou a chorar porque era banhada por lembranças maravilhosas. Ela era sua única e melhor amiga, como poderia dar-lhes as costas?
— Você odeia quando eu falo palavrão, mas eu gosto de você pra caralho! — falou Kailani. — Não sei se serei capaz de dizer “eu te amo” tão cedo, mas não posso me dar ao luxo de ficar outro dia sequer sem você.
— Olha a boca, mocinha. Vou ter que te calar? — ela a corrigiu, dando um selinho de leve naqueles lábios ainda com gosto de sorvete de creme.
Foi nesse instante que um grupo de garotos saíam da padaria ao lado e viram a cena. Pareciam ser de outra ilha, porque não tinham pinta de turista e nem eram conhecidos dos arredores. Um deles imediatamente começou a caçoar das garotas e os demais entraram a brincadeira
— Galera, saca só essa cena!
— Ah, quanto desperdício...
— Ô, se fosse lá em casa!
Mili quis se desvencilhar do abraço imediatamente, mas Kai a segurou com mais força e a pressionou contra seu peito.
— Por que vocês não somem daqui, seus imprestáveis?
Kai imaginou que eles iriam embora depois de as ofenderem de tantas maneiras, mas eles agora se aproximavam como se estivessem apenas começando o show. Miliani desejou mentalmente que aquilo não terminasse em briga, Kai era muito esquentada e não levava desaforo para casa. Justo agora que elas haviam se reconciliado!
Por algum milagre, os garotos começaram a se afastar e logo deram meia volta, apressando o passo como se tivessem visto um fantasma. Ao virar-se, Kai deu de cara com Uko, um gigante ameaçador com todo seu tamanho. Ika também estava junto, esguio eles pareciam ter afastado aqueles jovens inconvenientes só pela aparência.
— Maluco, tu viu isso? Esses brancos correm pra caramba quando querem! — falou Ika.
— Heh, heh. Podemos correr atrás deles também, irmão?
— Agora não vai dar, Uko. Temos que levar as meninas em segurança pra casa. Tem vez que essa vila é cheia de gente sem noção, tá ligado?


O dia da festa finalmente chegou. O fim de semana estava perfeito com sol e um clima agradável ao anoitecer. Todos os preparativos foram feitos, Hal vestiu sua camisa florida amarela e os shorts que ganhara de aniversário dos pais para ver um dos shows mais aguardados do ano — a maioria ainda não sabia, mas seria a despedida de Miliani. Àquela altura Dylan estava enlouquecendo com perguntas sobre a viagem, ele compreendia que não poderia força-la a ir se não quisesse, mas também não obtivera resposta alguma. Mili mesmo estava indecisa, mas precisou dizer ao seu chefe que aquele seria seu último show ou não aconteceria festa alguma.
Ika e Uko compareceram somente para ganhar alguns aperitivos de graça por toda a ajuda que prestaram ao Barão e sua família. Hal se divertiu muito com eles, sabia que precisava colaborar para que tudo na festa ficasse sobre controle. Ao término do show, Mili teria a “conversa decisiva” com Kailani e sabe-se lá no que aquilo iria resultar.
Mili encontrou sua amiga nos bastidores ainda se vestindo. Kai estava virada de costas tentando prender o sutiã e chamou-a quando a viu pelo reflexo do espelho.
— Vai me ajudar ou só ficar aí olhando para a minha bunda?
Mili sorriu e correu para fazer os ajustes. Apesar da brincadeira, Kai continuava séria e um clima estranho pairava entre elas. Mili abriu a boca para falar quando foi interrompida:
— Por favor, agora não. Temos um espetáculo para dar e eu não aceito nada menos do que a perfeição — disse Kai ao virar-se para ela e beijar-lhe na bochecha. — Te espero na praia quando acabar. No nosso esconderijo, tá bem?
Mili corou só de pensar e foi tomada por muitos pensamentos indecentes que aquele esconderijo lhe traziam. A primeira vez que ela e Kai se beijaram foi ali, na beira do oceano. Só foi despertada de seus devaneios quando seu nome foi anunciado. Era hora de uma entrada triunfal para embelezar a noite.
Miliani estava deslumbrante em qualquer ocasião, era como se ela tivesse nascido na noite, onde ninguém a enxergava completamente, como se fosse apenas um foco luminoso no meio da escuridão Kailani brilhava por si só, quando se cansava de sua própria luz ela recorria à sua companheira para compartilhar, pois juntas eram uma dupla perfeita.
Não precisavam mais ensaiar os passos, tinham na cabeça cada gesto de uma dança típica na região que se popularizou no mundo todo. O vestido de Mili flutuava como se fosse uma galáxia enquanto Kai colava a coxa nela com sensualidade, a dança era como uma disputa de amor e ódio, ambas colocavam tudo de si naquele último encontro entre o sol e a lua. Dylan não conseguia ficar de boca fechada, quanto mais via Miliani, mais desejava tê-la para sempre ao seu lado.
Foram feitos shows com fogo e até mesmo fogos de artificio. Pokémons e treinadores se divertiam, o Sr. e a Sra. Maximiliano nunca antes viram um espetáculo tão bem. Ao término da apresentação, o diretor da Cabana do Luar fez o derradeiro anúncio:
— É com orgulho e muito pesar que anúncio que este foi último show da nossa dupla! Uma salva de palmas para Miliani que deixará Alola para estudar em terras estrangeiras, vamos desejar-lhe sorte em sua empreitada e que ela nunca se esqueça dessa terra sagrada que estará sempre te braços abertos para recebê-la!
Nesse instante, Dylan soube que a resposta para a viagem era “sim”. Levantou-se imediatamente para abraçar Miliani, mas não a encontrou em lugar algum. Quando perguntou para Hal se ele sabia onde sua irmã estava, o garoto respondeu:
— Ela já vai voltar... Não se preocupe, vocês terão bastante tempo para conversar em sua viagem, só a deixe se despedir de Alola e tudo que ela já amou um dia.

Kai e Mili de fato voltaram para o backstage, mas saíram dali pelos fundos. Elas se livraram das roupas do evento o mais rápido que puderam e seguraram uma na mão da outra enquanto corriam pela estrada sem iluminação para que não fossem vistas por mais ninguém.
A praia estava completamente deserta. Kai sentia o toque da areia em seus pés. Os chinelos ficaram para trás, elas correram até o mar, Kai jogava água em sua amiga e as duas riram como nos tempos em que eram apenas crianças em busca de diversão.
Quando se cansaram, Kailani deitou-se na areia com os braços esticados e Mili sentou-se ao seu lado sobre uma pedra. Elas ficaram ali, iluminadas somente pelas estrelas e pela lua.
— Quem começa?
Mili aninhou-se ao lado dela, sem importar-se com a sujeira em seu vestido ou seus longos cabelos prateados.
— Primeiro: foi só um beijo.
— Só um beijo? Tá bom —  Kailani revirou os olhos em tom de sarcasmo. —  Olha só aonde esse beijo te levou... Para longe, muito longe de mim.
— Eu sou uma idiota por ter feito algo que te magoou tanto...
— Isso não foi nada perto do que eu estava prestes a fazer com você! Ouve só essa... Sabe o Michael, o mímico que trabalhava no circo? Eu e ele nos encontramos na cidade depois que seu irmão me contou que você e o loirinho se beijaram. Eu estava furiosa com você. Tão furiosa que queria transar com o primeiro cara que encontrasse, e o escolhido foi o Michael. Nós saímos juntos e eu bebi até cair e não conseguir mais levantar, ele me levou para um motel e nós estávamos quase fazendo uma tremenda burrice quando eu percebi que... não curto homens. Antes eu achava que poderia gostar, mas agora tenho CERTEZA que não rola. O Michael foi um anjo comigo, no fim das contas ele era gay e não teria acontecido nada mesmo, mas foi uma prova do quão mau eu posso ser quando traída.
— Minha nossa. Que história! — Mili parecia realmente chocada. — E eu só dei um beijinho no Dylan.
— Não duvide das capacidades de uma escorpiana de se vingar, querida, eu espirro veneno para todos os lados! Quando fiquei sabendo que você estava em perigo no circo, quis salvá-la imediatamente. Você e o Hal são parte da minha família, sabe disso.
— Obrigada por ser sincera comigo — disse Miliani. — Te imaginar com um cara já é engraçado o bastante!
— Nem me fale, terei pesadelos com isso... Mas no fim das contas, eu sempre soube que você era bissexual. Não resiste a um tanquinho, não é?
Elas se divertiam muito, mas a noite parecia estar correndo muito depressa e logo dariam falta das duas principais dançarinas do show.
— Quando você disse que o Dylan me levaria para longe, estava certa. Ele pediu que eu o acompanhasse para Hoenn.
— Aquele loirinho desgraçado, só porque eu estava começando a gostar dele!
— Mas ele também sugeriu que o Hal fosse...
— Você sabe que o Hal nunca iria.
— Isso automaticamente me impediria de ir também — continuou Mili com ares de preocupação. — Ele é meu irmãozinho, tenho que cuidar dele.
— Ele é o seu irmão, sim, mas você não é mãe dele. O Hal é um garoto crescido.
Fez-se um curto intervalo até Kai falar:
— Se quiser saber minha opinião, você devia ir.
— Mas isso me deixaria longe de você...
— Nossos caminhos seguiram juntos até hoje, Mili, mas se você quiser continuar o seu, você precisa ir embora. Se continuar aqui em Melemele seremos só um casal de velhinhas, mas você tem que cursar uma faculdade, tem ser grandiosa e estampar a capa de todas as revistas de moda e mostrar para essas vadias quem é que manda!
— Isso é possível, Kai? Você amar tanto alguém, mas acabar ficando com outro?
— Não sei. Só sei que eu quero que você seja feliz e que tenham uma família grande e feliz, que tenham filhos e vivam em uma casa enorme tomando banho de banheira aos fins de semana e fazendo sexo selvagem. Eu não poderia te entregar nada disso — ou melhor, o sexo eu faço até melhor! — mas eu sei o que seu coração pede... Alola nunca foi o suficiente, não é?
— Não me julgue interesseira, é só que...
— Quem sou eu para julgar? Você está bem, está feliz, e nós vivemos tempos maravilhosos juntas. Não posso te prender como se fosse meu passarinho, e nem você poderá fazer o mesmo comigo. Até quando você tem para responder o cara?
— Amanhã.
— Querida, então é melhor se apressar, porque temos uma mala enorme para preparar!

                       
O Barão Maximiliano e sua esposa Renée já estavam prontos com todos seus criados e pertences no jato particular que os levaria de volta para Hoenn. Dylan batia o pé, mas não havia sinal de Miliani. Seu amigo Izrael, que costumava atrasar-se quase uma hora em todas as viagens, acabou chegando antes.
— E aí, parceiro — falou Iz com as malas prontas para a viagem. — Estamos esperando o quê?
— Ah, cara... Um beijinho de despedida, talvez?
— Por que não falou logo, maluco? Chega mais — respondeu Iz, esticando os braços para seu amigo que caiu na risada e o empurrou para longe.
— Tá doido, velho? Tô falando um beijo da Mili.
Para sua surpresa, um pontinho prata pôde ser visto de longe no aeroporto. Mili estava correndo com três malas enormes contendo suas bagagens, vestia um vestido azul florido, óculos escuros e o chapéu cafona que ganhara de presente. Dylan não se aguentou de rir quando a viu.
— Eu não acredito no que estou vendo!
— Prepare o jato, estamos partindo! — respondeu Mili apreensiva.
Os funcionários colocaram todas as malas dentro. Não havia hora para o jato partir, era o próprio Barão quem dava as ordens e ele sabia como aquele momento era importante para seu filho. Faltava apenas uma despedida.
— Bom, acho que isso é — falou Hal, enfiando as mãos no bolso dos shorts. — Até!
— Ué, maninho... Suas coisas não estão aqui também? — perguntou Dylan.
— Nem, aquilo tudo são só as malas da minha irmã... Eu vou ficar.
— E quem vai cuidar de você? E do Dia? — Dylan parecia muito preocupado com a ideia de um garoto de doze anos ficar abandonado, mas foi surpreendido.
— A segunda irmã dele! — falou Kailani com uma risada. — Eu vou encher esse garoto de tanto carinho que ele nunca mais vai querer a irmã antiga. Eu sou a preferida dele agora. Há! Morra de inveja.
Mili ainda arfava de cansaço, mal conseguia escolher as palavras.
— Dylan, só me prometa uma coisa... Eu preciso voltar ocasionalmente. Uma vez a cada três meses, seis, quando for possível — falou, contemplando tudo que estava deixando para trás. — Essa ainda é a minha família.
Dylan segurou as duas mãos dela com carinho.
— Mili, a gente volta todo dia se você quiser. Até porque se for pra passar mais alguns dias no paraíso eu tenho sempre disposição!
A moça sorriu e agradeceu a oportunidade e o carinho com que era tratada. Pediu que Dylan e Izrael fossem entrando, tinha algumas palavrinhas finais para trocar com quem ficava. Agora estavam uma de frente para a outra, Hal desviava o olhar para que não o vissem chorando, porque odiava despedidas.
— Então, acho que isso é um adeus — falou Miliani.
Kai devolveu-lhe uma piscadela sedutora.
— Vê se não volta correndo pra mim quando decidir de vez que prefere mulheres, hein?
— Pode deixar. A primeira a gente nunca esquece. E você, meu irmãozinho do coração. Comporte-se, ouviu? Se chegar alguma carta da Kai dizendo que você não está se comportando, eu volto para te dar umas boas palmadas na mesma hora ouviu?
Ela deu-lhe um beijo rápido na testa e virou-se para ir embora. Os dois precisaram se afastar para que o jato tivesse espaço para decolar, ver Mili caminhar em direção daquele pássaro metálico seria a última imagem que teriam dela. Os próximos dias seriam completamente diferentes, sabiam que nada seria como era. Só esperavam aprender a conviver sem sua companhia.
Nesse instante, Hal retirou algo do bolso. Kai surpreendeu-se ao ver que era seu colar de ouro.
— O-onde foi que você achou isso?
— Isso não importa agora. Só não a deixe ir sem antes se despedir de forma adequada!
Kai apanhou o colar na mão e saiu correndo feito louca gritando o nome da amiga.
— Mili! Volta já aqui e nos abrace como gente!
Miliani virou-se como se só estivesse esperando alguém chama-la. Seu chapéu saiu voando e ela não se importou, voltou correndo e caiu nos braços de sua melhor amiga. Mili agora chorava muito — não de tristeza, mas de uma saudade que sabia que iria sentir até o fim de sua vida. Era o preço de seus sonhos e suas vontades. Quem sabe algum dia lá na frente pudesse retornar com o sorriso de quem cumpriu cada um deles.
— Eu amo vocês! Vocês são as pessoas mais importantes na minha vida! — disse Miliani, esticando o braço para acolher Hal que agora ajoelhava-se para unir-se ao abraço.
— Eu sempre serei sua Kailani. Sua primeira experiência. Indomável. Ardente — disse a moça que debaixo do sol brilhava feito ouro. — Vá, minha linda. Minha fofa. Minha musa. Minha deusa de cabelos prateados. Minha lua.
Kai prendeu o colar que comprou no pescoço dela. Atirara-o no mar, mas de alguma maneira o mar o trouxe de volta.
— Use isso. Vai te proteger, eu estarei te olhando sempre.
Naquele instante não importava se o colar se tratava ou não de um artesanato barato. Para Mili, era como um totem que seria guardado a sete chaves.
— Obrigada, Kai! Eu amo muito vocês, ouviram? Muito! Muito! Muito!
E ela continuou a repetir “muito” até que fechassem as portas.
O pequeno Rockruff ainda latia para o barulho das bobinas do avião. Popplio acenava para com uma das nadadeiras.
Mais tarde Hal contou que o colar fora milagrosamente encontrado por Ika enquanto ele pescava Magikarps com seu irmão Uko. Hal prometeu que lhes compraria pizza durante uma semana inteira em troca daquele caridoso presente que tinha “valor inestimável”. Encontrar o colar dentro da barriga de um peixe, só podia ser história de pescador!
Mili finalmente entrou no avião e se acomodou ao lado de sua nova família. Sentiu um arrepio na nuca quando soube que ele estava prestes a voar como um Skarmory gigantesco. A região de Alola logo não passaria de quatro ilhas perdidas no meio do oceano azul.
— É a primeira vez que ando de avião — admitiu Miliani.
— Dá um friozinho na barriga quando sobe, mas você vai gostar — falou Dylan. — Uau, que colar lindo! Eu não tinha reparado que você estava usando.
Mili olhou para ele e sorriu.
— É o meu sol!

   

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