Posted by : CanasOminous 1 de nov de 2016

Uma enorme tenda erguia-se em meio à região onde antes existia apenas um amontoado de lixo e criaturas selvagens. Miliani não estava preparada para sair em um encontro, não trouxera nenhuma roupa desde o incidente em sua casa, mas a Sra. Renée fez questão de emprestar-lhe um vestido de sua filha que estava guardado há quase uma década — depois de devidamente lavado, secado e perfumado, caiu-lhe muito bem. Nunca saiu de moda. O último detalhe foi uma flor delicada na cabeça, mas ainda estava envergonhada por usar um vestido que custava mais do que todo seu salário de um ano. Dylan andava só de shorts e camisa florida, poderia passar-se por um dos nativos com facilidade.
Hal não conseguia conter sua ansiedade, correu o mais depressa que pôde até a beirada da colina para enxergar um evento inédito em toda sua grandeza. Diversas luzes iluminavam a rota que do circo que acabara de ser instalado, o primeiro espetáculo seria inaugurado ainda naquela noite. Uma das maiores atrações era que treinadores e Pokémons podiam compartilhar espaço nas arquibancadas, fazendo jus ao seu tamanho monumental. Naquele tempo as pessoas ainda adoravam circos, era uma das formas de arte mais influentes do mundo, um programa incomum em meio à rotina pacata de muitos durante a semana.
Hal andava junto de sua Popplio, ela estava tão ansiosa quanto seu dono. Miliani prendera Rockruff na coleira para que o cãozinho não saísse espalhando o caos, por isso Dia teve que se comportar. Por um instante eles pareciam uma família grande e feliz.
— Vocês podem ir procurando os assentos? Vou comprar algumas pipocas e batata frita — falou Dylan, entregando-lhes os ingressos.
Miliani estava ali, perdida no meio de tantos turistas e pessoas de diferentes regiões. Estava acostumada à atenção que recebia na Cabana do Luar onde trabalhava, mas a repercussão do circo era cinco vezes maior. O público era refinado, o povo mais simplório de Alola nunca poderia pagar uma entrada. O trabalho dos artistas ali era reconhecido, a mera possibilidade de viajar mundo afora junto de tantas pessoas habilidosas a fez sibilar um sorriso. Um enorme letreiro neon brilhava com letras garrafais: Sunset Circus.
— Está pensando em como seria trabalhar em um lugar desses? — perguntou Hal para sua irmã. Ele a conhecia muito bem.
Mas o sorriso dela aos poucos foi desaparecendo.
— Eu não poderia. Tenho que cuidar desse pestinha — Mili respondeu, afagando sua cabeça.
— Fala sério, você está deixando de seguir os seus sonhos por minha causa? Não faça isso, sério, eu vou ficar muito triste.
— Não estou deixando nada de lado, querido. Essa vida de fama só não é para mim, não acho que eu poderia me tornar uma líder de ginásio famosa, ou quem sabe até uma artista, tem gente que não nasceu para isso. Eu só queria... — ela desviou o olhar. — Uma vida tranquila.
— Você se acomodou desde que aquele dia... — o dia da morte de seus pais.
— O que eu posso fazer? — Mili soltou um longo suspiro, tentando enxergar as estrelas no céu sem muito sucesso por conta da claridade. — Alguns acontecimentos nos fazem crescer rápido demais.
O pequeno Rockruff não parava de latir, havia tantos Pokémons e cheiros diferentes. Os dois ainda aguardavam na entrada quando um estranho homem com o rosto pintado de branco e vestes monocromáticas apareceu na companhia de seu Mr. Mime. Ele parecia ser um mímico, porque não falou nenhuma palavra e apenas gesticulou para eles. Hal riu ao perceber que o mímico se aproximou de sua irmã e começou a fazer sinais faciais e gestos, indicando que ela era muito bonito. Seu Rockruff, que agora latia com ainda mais força, parecia não querer companhia. O mímico olhou para seu Mr. Mime que fez um gesto pensativo, depois retirou algo invisível de uma bolsa imaginária, fazendo movimentos estranhos em volta do cachorro. Neste mesmo instante, Dia parou de latir e se comportou, como se um manto invisível o cobrisse. A pequena plateia que estava na entrada aplaudiu a demonstração e o mímico agradeceu todos com um gesto cortês.
— Como é que ele fez isso? — indagou Hal, maravilhado.
— É mágica! — falou outra menina na fila.
Senhorita Chefe, a Popplio de Hal, caminhou em direção do mímico e seu Mr. Mime e apoiou-se nas nadadeiras de trás, como se pedisse um último truque antes do espetáculo de verdade. O mímico silencioso fez sinal pensativo e teve uma ideia, fazendo o clássico sinal de que havia uma barreira invisível entre eles. O Mr. Mime entendeu o recado e começou a fazer o mesmo.
No momento que Popplio tentou atravessar para o lado deles, ela acabou realmente batendo em uma barreira transparente, fazendo com que todos caíssem na risada.
Dylan logo voltou com as pipocas e aperitivos, seus amigos queriam que ele tivesse as honras de entregar os ingressos e ser o primeiro a entrar.
— Estava uma fila enorme, não precisavam...
Quando finalmente adentraram o interior do circo, Hal surpreendeu-se com seu tamanho. Havia pilares enormes sustentando sua estrutura, a lona nem de perto parecia tão grande vista de fora, pela forma como as bases se erguiam eles fariam uso de cada centímetro de seu interior, desde piruetas no ar junto de Pokémons voadores até saltos mortais em uma piscina minúscula. Dylan finalmente encontrou seus assentos no corredor D, eram os números 17, 18 e 19. Tiveram de esperar cerca de meia hora para que o espetáculo finalmente começasse, todas as cadeiras estavam cheias e não havia espaço disponível. Um homem gorducho e de cartola fez a entrada triunfal surgindo de um caixote trazido por dois Machokes, ele desejou as boas vindas ao seu respeitável público e fez as devidas apresentações.
A atração inicial ia desde malabaristas até dançarinas, uma Tsareena foi a celebridade da festa com todo seu glamour e carisma.
— Ela é linda demais! A Pokémon perfeita! — ouviu-se alguém gritar da plateia.
O mímico também voltou para a cena. Ele apresentou seu Mr. Mime com novos truques, levitando objetos em demonstrações surreais de seus poderes psíquicos. Na hora de fazer o público dar risada ele trouxe um Mimikyuu pequenino que entrou em cena. O mímico, envolto em mistérios, insinuou que iria desvendar o mistério sobre o que realmente existia debaixo do manto dos Mimikyuu. Ninguém jamais ousou retirá-lo, temendo uma maldição que não pode ser varrida por rezas ou amuletos.
A tensão era grande. Quando o manto foi retirado, toda a plateia praticamente gritou ao mesmo tempo ao descobrirem que era na verdade...


— UM BIDOOF! — todos caíram na risada, afinal, não se pode gostar de Bidoofs.
Aquele pobre Pokémon fora trazido da distante região de Sinnoh, obviamente não se tratava de nenhum Mimikyuu verdadeiro. Ele parecia bem triste e não recebia as risadas de forma positiva. Hal ficou um pouco chateado pela maneira como o público ria e se divertia com aquela criatura tão patética, como piada. Ao menos, contanto que o Pokémon estivesse em boas mãos com o circo, era melhor do que cair no time de algum treinador que o transformasse em um HM Slave, um escravo de movimentos.
Hal não percebeu que a um dado momento do show, sua Popplio desaparecera. Ele se levantou assustado e procurou por todos os lados nas arquibancadas até perceber que a Senhorita Chefe estava andando para o meio da pista onde os palhaços acabavam de entrar e iniciavam a próxima apresentação. Hal ergueu-se num salto, mas não tinha como impedi-la. Os palhaços viram o Pokémon curioso andando na direção deles e decidiram improvisar.
— O que temos aqui, Wilson?
— Acho que temos um Pokémon perdido, Wally.
Os dois apoiaram-se em seus joelhos e chegaram bem perto da pequena Popplio, esfregando seus narizes rosados um no outro.
— Você gosta de panquecas, amiguinho? Hein? Hein? — falou Wally.
— Seu idiota, não percebe que ela é uma fêmea? — reclamou Wilson.
— E como você sabe que ela é uma fêmea, seu cabeção?
— Da mesma forma que eu sei que você é um macho!
Todos riram na plateia e os palhaços ergueram a Popplio no alto para participar da peça. Era um improviso que acabou sendo muito bem vindo, a ideia de receber Pokémons dos visitantes interessou e muito o organizador do Sunset Circus que adorou o resultado. A Senhorita Chefe brincou em enormes bolas infláveis, fez graça e divertiu o público como se fosse parte do teatro. Ao final do show, os palhaços Wilson e Wally a ergueram no alto, e juntos, agradeceram o público num cumprimento cordial. A Popplio amou ser aplaudida junto dos demais artistas.
— A quem pertence essa adorável criatura? — perguntou um dos palhaços bem alto.
Mili cutucou seu irmão, pedindo para que ele levantasse.
— Estão chamando você!
— Vai lá, é a sua chance de aparecer! — Dylan também o incentivou.
— M-mas na frente de todo mundo?!
Dia escondeu-se atrás da cadeira do garoto e deu um latido tão alto que o assustou, fazendo-o levantar-se depressa. Os holofotes miraram nele e Hal foi obrigado a descer até o palco. O dono do circo o recebeu de braços abertos.
— Qual seu nome, garoto?
— É Hala Kameahookohoia.
— Saúde — falou um dos palhaços.
— Seu Pokémon é um artista nato! Uma salva de palmas para Hala e seu Popplio!
Hal estava extremamente envergonhado com a recepção calorosa de pessoas que nunca antes vira, mas sua Popplio simplesmente se deleitava. Ela nascera para aquilo, o som dos aplausos era seu combustível. Na primeira vez em que se perdera de seu bando nas águas frias de Alola foi porque ouviu o barulho de seres humanos nas proximidades, sendo imediatamente atraída para a costa. Acabou por encontrar-se com Hal que levava uma vida simples no campo, mas o primeiro contato com os holofotes da cidade a fez querer viver ali para sempre.
Os palhaços fingiram lágrimas quando tiveram de se despedir da Senhorita Chefe, a Popplio acenou com sua nadadeira e encheu o coração dos espectadores com compaixão.
Sua irmã e Dylan o aguardavam em seus respectivos assentos quando o espetáculo terminou. Ainda estava bem cheio, preferiam esperar a multidão sair apressada para somente depois se levantarem. Enquanto isso, teriam muito a rir e comentar sobre o ocorrido.
— Cara, você ficou vermelhão lá na frente! Ardendo feito um Slugma! — falou Dylan animado.
— E ainda dizem que sou eu que levo dom para o lado artístico — brincou Miliani.
— Não inventem coisa. Eu só fui buscar essa pestinha que em um dia já me fez passar mais vergonha do que em toda minha vida — falou Hal olhando para sua companheira.
Enquanto aguardavam, um sujeito de camisa listrada apareceu pulando as cadeiras até conseguir aproximar-se deles. Quando finalmente os alcançou, ajeitou o cabelo e falou com alívio:
— Ufa, sorte que ainda estão aqui! Pensei que já tivessem ido embora.
— Quem é você? — perguntou Dylan, desconfiado.
— Ah, desculpem, fico meio irreconhecível com a maquiagem. Eu sou o mímico da peça, meu nome é Michael.
— Você... fala? — perguntou Mili, decepcionada. O rapaz riu da inocência da garota.
— Claro, e para ser bem sincero, meus amigos dizem que falo até demais. Pois bem, vocês são os donos dessa adorável Popplio, não é? Meu chefe adoraria conversar um pouco mais, especialmente com o garoto. Estão interessados?
Michael levou-os até os bastidores do circo onde muitas pessoas já arrumavam os acessórios usados na festa, preparando-se para o espetáculo de amanhã.
— Senhor Mímico, posso perguntar uma coisa? — indagou Mili. — Que tipo de magia você fez para que meu Rockruff parasse de latir?
Michael sorriu com a curiosidade da moça.
— Não existe magia entre nós, humanos, mas nossos Pokémon são capazes de milagres. Aprendi a me comunicar com meu Mr. Mime através de gestos e pedi que ele utilizasse o movimento Role Play em seu Rockruff. Dessa forma, suas habilidades foram trocadas, o Soundproof de meu Mr. Mime foi transmitido ao seu cãozinho que imediatamente notou uma diferença drástica no barulho emitido por seu latido e isso o fez parar por algum tempo. Mas o efeito passa, logo ele estará latindo loucamente mais uma vez!
— E a parede invisível?
Barrier. Esse era meio óbvio, não? Se os Pokémons psíquicos conseguem entortar colheres com o poder da mente e levitar objetos, digamos que nosso show de mágica realmente é feito de pura magia!
Ao chegarem nos bastidores, o homem gorducho que parecia ser o mestre de cerimônias conversava com dois sujeitos sérios, um deles fumava um cigarro. Hal os reconheceu como sendo Wilson e Wally, os palhaços.
— Chefe, eu os encontrei — disse o mímico.
— Maravilha! Onde está? Onde está a nossa estrela?
A Popplio aproximou-se do homem que a pegou no colo.
— Coincidentemente, o nome dela também é Chefe — falou Hal.
— Oh, então temos aqui um dom nato para a liderança! Imagine só colocar essa mocinha na liderança, ela pode fazer piruetas em cima de nosso Zebstrika, saltar na piscina do Shellder, aumentar a repercussão dos palhaços!
— Nós vamos ter que ficar carregando essa coisa por toda parte? — perguntou Wilson, um dos palhaços que estava com o cigarro entre os dentes.  Agora não parecia tão engraçado ou alegre. Preferiu não ficar e ouvir a resposta, ele guardou o isqueiro e ajeitou a blusa antes de sair. — Vamos embora. Ainda temos alguns lugares para ir hoje à noite.
— Falou — respondeu Wally, o outro palhaço.
Apesar da estranha recepção, Hal e Miliani continuavam muito empolgados com o que viram na apresentação.
— O espetáculo do senhor é brilhante, é a primeira vez que vou a um circo e tive a melhor das experiências! — disse Mili.
— Oh, agradecido. Batalhei muito para chegar onde estou hoje. Gostariam de uma algo para beber? Vocês têm horário para voltar ou estão muito ocupados? Eu adoraria conversar melhor.
Os pais de Dylan não ligavam de eles voltarem tão tarde, contanto que não excedesse a meia noite. A Tsareena da apresentação de abertura logo veio trazendo uma bandeja com aperitivos e algumas xícaras. O homem de cartola serviu seus convidados com chá, biscoitos e queijo, perguntou se Miliani e Dylan eram os pais ou talvez os responsáveis por Hal, pois ele tinha muito interesse em fazer-lhe uma proposta.
— Garoto, você gostaria de deixar sua Popplio sob nossa proteção pelo período de uma semana? Gostaríamos de ver se ela se adapta aos nossos métodos, vamos treiná-la e oferecer alimento adequado, acredito que tenhamos aqui uma futura estrela, nunca vi tamanha habilidade!
— E-eu... não sei — murmurou Hal.
Ele sentia certa pressão, afinal, só tinha doze anos. Não fazia nem dois meses que conhecera Popplio, mas via nela uma grande amiga. Queria tê-la ao seu lado por mais tempo, tinha medo deles não a tratarem tão bem ou de que acabasse sentindo sua falta.
Vendo que havia a possibilidade de sua proposta ser recusada, o chefe do circo analisou bem as vestes e o porte da criança. Hal era simples. O homem serviu-lhe um pouco mais de chá e então falou:
— Bem, se interessar, podemos discutir a possibilidade de pagar uma boa quantia por cada apresentação de sua Popplio... Eu pago adiantado só pelos testes, dinheiro vivo, agora mesmo.
Ele retirou um bolinho de notas verdes enroladas e colocou-o sobre a mesa. Hal nunca pegara em tantas notas ao mesmo tempo, até mesmo Mili sabia que aquela quantia ajudaria muito com as contas, cerca de 150 dólares. Era um dinheiro seu, somente seu.
— O que me diz? — o homem do circo voltou a pressioná-lo.
Os pensamentos de Hal estavam muito conturbados, ele sentiu alguém tocar em seu ombro, mas para sua surpresa não era sua irmã.
— Cara, se for para topar, não é pelo dinheiro — falou Dylan. — É o sonho dela. Você sabe que sua Popplio tem dons artísticos, pode experimentar esse período de testes e, se não gostar, nós a levamos de volta.
Hal bem para sua companheira Popplio. Ele seria a voz dela.
— É só uma semana, não é?
O chefe concordou com a cabeça e lhe esticou a mão.
— Nem um dia a mais.
Hal finalmente aceitou a proposta, entregando a Senhorita Chefe nas mãos de seu novo mestre. Não havia pokébolas para que uma troca formal fosse feita, não houve nem contrato algum. O diálogo e sua palavra lhes eram suficientes.
— Oh, preciso começar imediatamente a criação de banners e flyers: “Popplio é a nova sensação do Sunset Circus!” Seu nome estará estampado no mundo inteiro!
Hal olhou para sua irmã e a primeira coisa que fez foi entregar-lhe o dinheiro. A moça fez que não com a cabeça, ele mesmo deveria guardar e decidir em como usaria aquela quantia. Ao menos seu coração era confortado pelo fato de que a Popplio desejava isso mais do que tudo. Ela daria o seu melhor, precisava pelo menos tentar.
Quando Hal finalmente deixou os bastidores, ainda sentia certo aperto no coração.
— Passa rápido, parceiro — disse Dylan colocando o braço no ombro do mais jovem. — Quando você menos perceber, ela estará com vocês novamente!


Não se falou mais nada o caminho inteiro da volta para casa. Hal e as irmã estavam tão maravilhados com o circo que por alguns instantes esqueceram-se completamente de suas preocupações, era justamente o que Dylan tinha em mente, eles precisavam esfriar a cabeça e divertir-se um pouco.
Quando retornaram à mansão, a primeira coisa que Dia fez foi começar a correr atrás do Meowth da família. Barulho e diversão tornou-se comum na morada do Barão Maximiliano que vinha tendo momentos agradáveis com suas visitas.
Dylan seguiu para seu quarto para tomar um bom banho, enquanto isso Mili finalmente deitou-se em sua cama de braços abertos e arrancou os sapatos que já machucavam seus dedos. Seu irmão deitou-se perto das pernas da moça e foi subitamente atacado por seu Exeggcute. Os dois riram e ficaram olhando para o teto adornado com desenhos de Pokémons Lendários, como se fosse o de uma catedral. As cortinas esvoaçavam ao toque do vento morno e o mormaço da praia.
— Hoje foi incrível — disse Miliani.
— Quando é que vamos voltar? — seu irmão perguntou sem olhá-lo diretamente nos olhos.
— Não sei, Hal... A Kai deve estar preocupada, precisamos começar a juntar dinheiro para reformar nossa casa. É meio injusto deixar que o Dylan resolva tudo, e a vila inteira foi devastada, a Kai têm ajudado os moradores locais com trabalho voluntário enquanto nós só ficamos aqui aproveitando...
— Eu quis dizer voltar ao circo...
— Ah — ela sorriu e virou-se para ele. — Agora você tem uma artista sob seus cuidados, terá de ficar de olho nela. Espero que eles possam treinar sua Popplio com dedicação, ela se tornará uma verdadeira celebridade!
— Vai sim — sibilou Hal, imaginando-a acima dos pedestais. — O mundo inteiro vai conhecê-la...
Na manhã seguinte, a primeira decisão de Hal de onde gastar seu dinheiro foi com sorvetes para todos no VaniDelluxe. Porém, para sua surpresa, o local estava fechado desde a tempestade, a vila ainda não conseguira se recuperar e muitos moradores não tinham sequer onde morar. Era uma paisagem triste que assolava a antes tão bela e animada Melemele Island.
— Bem, espero que ainda estejam servindo o almoço em casa — Dylan tentou animá-los.
Aproveitando a passagem pelo centro, Hal quis fazer uma visita ao Esconderijo para saber se Ika e Uko estavam bem. Praticamente não reconheceu a estrada que costumava frequentar — estava completamente destruída. Havia apenas caixotes quebrados, pedaços de madeira e lixo revirado, como se a cabana tivesse sido abandonado há muito tempo e o mar tivesse tratado de levar o que sobrou dela. Pela primeira vez desde o incidente, sentiu-se culpado por não procurar seus amigos antes.
— Será que eles estão... — Mili murmurou e Hal cerrou seu punho.
— Não! Eles estão em algum lugar na ilha! Vamos procurá-los!
Os três passaram a tarde toda percorrendo as ruas e trilhas da ilha. Não era difícil reconhecer dois sujeitos de pele escura, um gigantesco e outro magricela, ninguém os conhecia ou se importava com eles. Dylan falou que voltaria para a mansão para pedir ao mordomo Sebastian que chamasse seus seguranças para que já ajudassem na busca.
Hal só fez uma parada por volta das cinco da tarde, ele e sua irmã alcançaram a ponte que ligava ao porto, se Ika e Uko não estivessem ali só poderiam ter pego um barco para outra ilha.
— Eu preciso descansar — falou Miliani, apoiando-se em seus joelhos. — Vou voltar para a mansão e me encontrar com o Dylan.
— Não, não podemos descansar, Mili! Eles podem estar em perigo.
Hal estava para recomeçar sua busca do começo quando notou que uma pequena maçã mordida foi atirada de debaixo da ponte. Se conhecia bem, os Leftovers eram marca registrada de um certo alguém. Ele desceu o barranco até o riacho e deparou-se com Ika e Uko escondidos nas sombras, com suas vestes costumeiras, só um pouco mais sujos.
— Ika! Uko! — Hal falou alegremente. — Vocês estavam aqui o tempo todo?
— Fala, guri! Nosso Esconderijo antigo foi destruído, então nós decidimos dar entrada em nosso mais novo local de trabalho... Conheça o Santuário!
Estava completamente vazio, a não ser por alguns lençóis e pedaços de papelão.
— Os tempos têm sido difíceis — disse Miliani, pensando que ela também poderia estar morando na rua se não fosse pela ajuda de Dylan.
Hal tinha uma ideia em mente, só não sabia se estaria sendo ousado demais.


O Sr. e a Sra. Maximiliano tinham a impressão de que sua mansão começava a se tornar uma espécie de albergue. Dois sujeitos estranhos agora entravam descalços nos salões chiques da nobreza e sujavam o assoalho, o mordomo Sebastian não tirou os olhos deles e as próprias empregadas sentiram-se um pouco desconfortáveis a princípio, mas logo o Barão esticou os braços em sinal de compaixão.
— Bem, se são amigos de nosso Dylan, então são nossos também! — disse Tio Max.
— Aproveitem e jantem conosco, devem estar famintos — continuou a Sra. Renée.
Dylan achava a cena muito engraçada por nunca se lembrava do nome daqueles dois sujeitos, vivia chamando Ika de Uko e vice versa. Só tivera a chance de conhece-los um pouco melhor no aquário, mas fora o suficiente para divertir-se e querer repetir a experiência. Seus pais já estavam tão acostumados de vê-lo chegar em casa com estranhos que já não se importavam.
Enquanto se dirigiam até a sala de jantar, Uko viu um vaso muito bonito feito de cerâmica, retirado de escavações no fundo do oceano em Unova. Ele viu o objeto brilhante e tocou com desejo, mas seu irmão Ika deu-lhe um tapa forte na mão.
— Quê isso, rapaz? Tá ficando doido? Papai do céu tá olhando!
— É que ele é tão... bonito — resmungou Uko, massageando sua mão enorme.
Pela primeira vez em muito tempo, a mesa do banquete estava cheia. Antes de começarem a refeição, Ika pediu que eles dessem as mãos e fizessem uma rápida oração, agradecendo a hospitalidade e o carinho com que eram tratados. Uko pegou o enorme pedaço de pernil e colocou-o inteiro em seu prato, comendo como se não o fizesse havia pelo menos uma semana. A família do Barão só não tinha se preparado para tantos convidados, por isso apressaram-se em pedir que o cozinheiro preparasse mais comida.
— Aguentem só um instante, vou pedir ao meu chefe que faça novos pratos. Os senhores têm alguma sugestão?
— Sei que eles adoram pizza — falou Miliani com uma risada.
A Sra. Renée riu com a ideia.
— Céus, há quantas décadas não somos servidos com um bom pedaço de pizza?
— Isso me lembra dos tempos em que meu pai ainda cozinhava para nós — disse Tio Max com uma risada, sendo levado por memórias de quase cinco décadas atrás.
— Vamos lá, meu velho, peça dez sabores diferentes! — completou Dylan com empolgação.
Todos comeram até não aguentarem mais. As pizzas saíam da cozinha a todo minuto, Ika e Uko começaram a comer com as próprias mãos e os demais fizeram o mesmo até se lambuzarem por inteiro com as pizzas de brigadeiro e banana com doce de leite. O Sr. e Sra. Maximiliano compartilharam histórias e se divertiram com seus convidados, o simples vislumbre de mudança trouxe mais cor e emoção na vida de dois velhinhos sem grandes expectativas.
— Acho que vou explodir — falou Uko, debruçando-se sobre a mesa.
— Maluco, nunca comi tanto! — Ika falou como forma de agradecimento a todos ali presentes.
Ika e Uko foram alojados em um segundo quarto de hóspedes, pelo menos ali ficariam seguros e teriam conforto até que encontrassem trabalho ou ao menos um lugar para morar. Quando se dirigia ao seu quarto, Mili não sabia como agradecer Dylan pela calorosa recepção de seus pais.
— Mil perdões por todo o trabalho que estamos dando a você e sua família...
— Tá brincando? — o loiro riu e olhou para os lados, mostrando seus velhos pais que ainda riam e conversavam próximos à lareira, provando aperitivos e degustando uma boa taça de vinho. — Já passa da meia noite e aqueles dois estão acordados, há alguns dias atrás eles não tinham sequer assunto para conversar. Vocês têm noção o que fizeram?
— Foi... algo ruim?
— Não, pô. Meus pais comendo pizza com as mãos na sala de jantar! Eu nunca tinha visto isso na minha vida! É sério, se tem alguém aqui que precisa agradecer, este aqui sou eu.
Miliani ficou encabulada, sentia-se constrangida com a ideia de atrapalhá-los o tempo todo. Pelo menos assim se sentiria mais à vontade. Mili deu um beijo suave na bochecha de Dylan e desejou-lhe boa noite antes de voltar para o quarto. O surfista andava pelo corredor como se enfrentasse uma onda feroz, mal conseguiu manter-se pé, por mais singelo que fosse o beijo mexera com ele. Já era um avanço.
Mili estava para ir deitar-se quando notou que seu irmão não estava na cama. Hal puxara uma cadeira de praia e agora contemplava o céu noturno na varanda com Dia em seu colo. Sua irmã acariciou seu cabelo e pediu que não demorasse, afinal, os dois tiveram um dia cheio e agitado.
O menino continuou ali por cerca de meia hora, nenhuma nuvem cobria o céu e ele tinha muito o que pensar sobre sua vida e o que o aguardava dali para frente depois que as férias acabassem. Dia já adormecera em seu colo, ele estava para levar seu cachorrinho para dentro quando avistou um estranho brilho que percorreu o céu.
Pensou tratar-se de uma estrela cadente, era a primeira vez que via uma. Não sabia se deveria fazer um desejo ou uma oração como Ika sempre fazia. Ele entrelaçou suas mãos e se certificou de que sua irmã já estava dormindo, ficaria meio desconfortável caso alguém estivesse ouvindo. Não queria pedir nada, só agradecer, mas tentou mesmo assim.
— Oi, estrela. Obrigado pela viagem ao circo hoje, foi muito divertido. Obrigado pela companhia tão divertido e por cuidar de meus amigos quando eles precisaram. Obrigado por nos proteger. Eu gostaria que esses dias nunca mais acabassem, e... É. Acho que eu sou uma criança muito feliz.
Hal terminou de agradecer e abriu os olhos, mas percebeu que a estrela continuava no céu cada vez mais próxima, como se viajando pelas galáxias. Ela então emanou um brilho mais forte e caiu da estratosfera diretamente no meio da mata, no topo da montanha ao lado da mansão, causando um estrondo e um clarão forte como se fosse um trovão.
Ele não sabia bem o que era, mas queria descobrir mais do que tudo.


   

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  1. Esse dono do circo ,eu suspeito dele ,qualquer pessoa que deshonre o poderoso Bidoof não é de confiança ,além disso,isso me lembra ''O verdadeiro Exeggutor era nativo das Ilhas Laranja, trabalhava em um circo de um homem terrível que o utilizava como aberração para seu espetáculo, de forma que todos os espectadores atirassem objetos na criatura que nada podia fazer além de encolher-se em sua jaula e temer pelas agressões. ''

    You've met with a terrible fate, haven't you?

    PS : Não perderam tempo de botar a Tsareena na historia , essa Pokemon é praticamente a Gardevoir de Alola

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    1. Muito bem notado, companheiro Donnel! Está na hora de dar um pouco mais de participação ao nosso Barão antes de concluirmos a fic, tanto é que este é exatamente o motivo pelo qual acabei estendendo a história em dois capítulos, não dava para desenvolver a trama como eu gostaria.

      Não vai dar para contar toda a história do que rolou até ele ir parar nas Ilhas Laranja, mas já é o suficiente para termos uma noção da origem desse vilão que eu tanto adorava na época de Sinnoh :') E pode desconfiar à vontade do dono do circo, vai ter plotwist clichê e pancadaria, afinal, não dá pra eu concluir fic sem um pouco de drama e sofrência! Vamos matar alguns personagens... *risada maléfica*

      Ah, e eu queria muito poder trabalhar com a Tsareena, cara! Infelizmente não vou conseguir fazer nada legal com ela aqui no Ohana Dreams, no máximo vão ser algumas citações igual a esse capítulo, então terei de deixar isso para o Doris. Mas que Tsareena é a Gardevoir de Alola, isso não posso negar ( ͡° ͜ʖ ͡°)

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