Posted by : CanasOminous 2 de dez de 2016

Nunca foi dos mais fofoqueiros da sua turma na escola, mas pela primeira vez sentiu que tinha um segredo que precisava ser compartilhado.
Hal passou dois longos dias refletindo sobre sua situação. Sua irmã obviamente gostava de Dylan, mas ela namorava Kailani, que também era sua amiga. Se ele contasse que Mili a estava traindo, estaria assim fazendo a coisa certa ou seria melhor omitir uma informação e fingir que nada aconteceu? Mili andava distante e Kai não dava as caras há dias. Por um instante, desejou que sua vida apenas voltasse a ser como era.
 Não deveria estar saindo de casa tão tarde, mas também não poderia continuar mais um segundo sequer com aquela dúvida. Ao anoitecer Hal ajeitou sua mochila nas costas e deixou a mansão pelos fundos no horário em que as empregadas jantavam. Não avisou sua irmã, nem Dylan ou Sr. e a Sra. Maximiliano. Preferia que ninguém ficasse sabendo de sua saída. Sempre soube de cor o endereço de onde Kailani morava, ela costumava dizer que se Hal se perdesse na ilha então deveria ir procura-la no mesmo instante, porque ela estaria sempre disposta a ajudar. Agora seria a sua vez de ajuda-la.
Na estrada, Hal pegou uma carona com Ika que arranjou um emprego como caminhoneiro com recomendação do Sr. Maximiliano. Para alguém que estava desempregado há pelo menos oito anos, foi uma ajuda vinda dos céus. Agora Ika e Uko ajudavam nas entregas no porto e voltavam de um dia cansativo de trabalho no vilarejo próximo.
Quando Hal pediu maiores informações sobre sua amiga, eles se prontificaram em leva-lo até a vila.
— Acho que vi a garota de cabelo curto não faz muito tempo — comentou Ika pensativo enquanto dirigia com um dos braços para fora. — Onde era mesmo Uko?
— Naquela loja de coisinhas brilhantes — respondeu o gigante, sentindo o vento soprar na cara com o vidro abaixado.
— Pode crer, a loja de joias! Vamos dar uma corrida porque talvez dê tempo de t u encontre ela por lá, brother. A gente vai se falando!
Hal apressou-se até a única loja de joias que conhecia no vilarejo. Tratava-se de uma senhora de pele escura que vendia pedras raras e pérolas retiradas diretamente do oceano a preço de banana. Os turistas se esbaldavam com a barganha, principalmente se comparado aos altos preços da cidade.
Hal não encontrou Kailani por lá. Quando passou próximo à feira noturna que sempre atraía multidões de todas as regiões para seus artesanatos, sentiu que alguém tampou seus olhos por trás e sussurrou em seu ouvido:
— Adivinha quem é?
— Kai, você é a única que faz isso comigo desde criança — Hal respondeu com uma risada para a surpresa da moça. Não achou que seria desmascarada com tanta facilidade.
— Ai, isso nunca vai perder a graça! Me diz então, o que faz aqui fora a uma hora dessas? Está passeando com sua irmã?
— A Mili ficou na mansão... Eu vim sozinho.
— Sozinho? Hal, querido, é perigoso para uma criança andar por aí sozinho à noite, mesmo alguém valente e corajoso como você — respondeu Kailani com ares de preocupação. Ela sempre agiu como se fosse sua própria irmã, e às vezes realmente era mais cuidadosa e prestativa do que Mili. — Na próxima vez me chama, ok? Independente de onde estiver ou do horário que seja. Eu te protejo.
Kailani sorriu e deu-lhe um empurrão fraco no ombro, mas por algum motivo naquela noite abafada o garoto não ria ou se divertia como de costume.
— Vem. Vamos andar um pouco — disse Kai ao ajeitar sua bolsa, pedindo-o que a seguisse.
Os dois andaram em silêncio pela calçada na costa. A vila não estava tão movimentada quanto de costume, mas as luzes noturnas davam um belo show que só Alola sabia oferecer, especialmente vindo de uma vila que mal se recuperara de uma tempestade com a força de um furacão. Algumas vezes Kai gostava de andar de mãos dadas com Hal só para fazê-lo passar vergonha, divertia-se à beça quando os amiguinhos da escola do menino perguntavam se ela era sua namorada ou algo do tipo; mas dessa vez ambos seguiram lado a lado sem muito contato físico ou visual.
Eles andavam sem um rumo ao certo, Hal sentia as palavras presas em sua garganta. Kai agia tão descontraída e animada, sorria para homens e mulheres que passavam ao seu lado, não porque os desejava, mas porque sentia-se feliz e precisava retribuir o mundo de alguma maneira.
Quando alcançaram o porto, Kai apoiou-se na beira do píer enquanto se equilibrava entre toras de madeira levemente soltas. Fez sinal para que Hal a seguisse e o garoto a acompanhou até chegarem bem longe da cidade, até que a música animada da noite deixasse de ser ouvida e o movimento desaparecesse. Só se ouvia o som das ondas e do mar.
— Kai, eu... — Hal começou, mas sua amiga não o deixou terminar.
— Olha só o que comprei — ela retirou o que parecia ser um lindo colar de ouro de sua bolsa. Parecia custar os olhos da cara, porque era incrustado com uma linda safira azulada no centro. Hal ficou maravilhado e por um instante perdeu a fala novamente.
— É lindo...
— É para a sua irmã.
— Tá brincando? Ela não merece — o garoto disse num tom cínico.
— Merece, sim. Sua irmã é a garota mais incrível que já conheci em toda a minha vida. Digo, não é como se fosse um pedido de casamento nem nada, é só uma lembrancinha mesmo, e... quero dizer, ah, estou me enrolando toda — disse Kailani num raro gesto onde sentia seu rosto corar. — Acho que eu só gosto muito dela.
— Era exatamente sobre isso que eu queria falar, Kai...
A mão da moça recuou e sua expressão tão sorridente foi diminuindo.
— Outro dia eu vi minha irmã beijando o Dylan. Achei que deveria te contar.
Hal sentiu-se um traidor fajuto. Talvez fosse melhor não ter contado. Agora as duas iam brigar, terminariam o namoro e se odiariam para o resto da vida. Kai agia como se ela já soubesse. Sua namorada, morando com um cara loiro, rico e sarado em uma mansão que custava milhões, seus medos só podiam estar se tornando reais.
 O menino fechou o punho e desejou nunca ter falado nada, mas viu Kai agachar para ficar da sua altura. Seu coração bateu mais depressa.
— Obrigada por me contar. Você fez a coisa certa.
Kailani ajeitou sua bolsa e estava para ir embora quando Hal lhe perguntou:
— O que vai fazer agora?
— Vou voltar para casa. Pensar um pouco. E chorar pra caralho. Você... sabe o caminho de volta para a mansão, não é? Desculpa, Hal, eu não vou conseguir te acompanhar e proteger como eu havia dito...
— Kai, por favor, não fica triste — Hal emendou, sentindo que também começaria a chorar se visse seu porto seguro desabar em sua frente. — Eu não devia ter contado, eu só queria...
— Eu senti que ela estava estranha, sabe? Só não queria admitir a mim mesma. Acho que não poderei entregar meu presente a ela, então você acha que poderia fazer por mim? — indagou a moça, mostrando-lhe o colar de ouro.
Hal fez que não com a cabeça.
— Não posso! Ela tem que receber esse presente diretamente de você, Kai! Você tem que mostrar que o seu amor por ela é mais sincero e verdadeiro, eu gosto muito do Dylan, mas pode ser que eles só tenham cometido um erro, e...
Kailani virou-se para o mar e atirou o colar lá longe para o fundo do oceano. Hal arregalou os olhos, nem que quisesse conseguiria busca-lo.
— Por que você fez isso?! Você não devia ter jogado, era um presente caro!
Era falso, não se tocou? Passei na joalheria e olhei alguns preços, céus, eu não poderia comprar nada lá nem que juntasse o meu salário de um ano inteiro! — gritou Kailani com todas as forças, esfregando seu rosto na tentativa de conter a raiva. — Eu não tenho grana pra comprar coisa cara, eu não tenho um carro, não tenho um trabalho decente e nem pais que compram uma mansão legal pra mim. Eu não tenho nada! Só tenho amor... muito amor para dar. Mas esse amor só me fode.
Kai cobriu seus próprios olhos, como se não quisesse que ninguém no mundo a visse chorar daquela maneira, muito menos aqueles que amava. Sem conseguir se despedir, correu no caminho oposto do píer em direção da música e do som, desaparecendo em meio ao movimento da cidade como uma sombra qualquer.
Hal abraçou seus joelhos e chorou por muito tempo ali, sozinho. Nunca soube dizer se fez a escolha certa naquele dia. Mas não era justo, simplesmente não era o tipo de amor que conhecia e aprendeu a respeitar.
Não sabia nem como voltar para casa e compartilhar o quarto com sua irmã sem sentir arrependimento e tristeza. Naquelas circunstâncias, procurou por seus amigos Ika e Uko e os encontrou num dos albergues para moradores de rua. Não se comparava em nada ao luxo que vinha tendo nos últimos dias, mas era o que achava que merecia. O local estava muito cheio por conta dos vários desabrigados desde a tempestade. Quando contou que passaria uma noite com eles, Ika e Uko festejaram e em momento algum perguntaram o motivo.
Passou a noite entre roncos, o som de madeira rangendo e outros barulhos esquisitos. Teve bastante tempo para pensar. Primeiro planejou voltar para sua antiga casa destruída, as reservas de alimento poderiam durar algumas semanas — isso se já não tivessem estragado, parecia que anos se passaram desde a tempestade —, se desse um jeito nas janelas quebradas e nas goteiras talvez conseguisse se virar por alguns dias. Isto é, até que Mili ficasse preocupada e decidisse ir procura-lo.
Isso se ela se der conta de que eu sumi, pensou Hal. Mili está muito contente com Dylan, é mais provável que saiam de mãos dadas e fujam para Hoenn, onde terão filhos e viverão como uma família grande e feliz.
Se pelo menos tivesse seus Pokémon ao seu lado... Popplio estava treinando com os outros artistas do circo e sua irmã nunca o deixaria levar Diamante embora, o Rockruff era a única lembrança dos pais. Sobrava o pequeno Exeggcute, que não tinha muita noção do que fazia, mas era um bom companheiro.
Seu coração se remoía de pena por Kai. Nunca se esqueceria do rosto dela aos prontos, da forma triste e furiosa como falou e atirou o colar de ouro bem longe. Devia tê-la abraçado mais, ter dito como a amava, mas não da mesma forma como a sua irmã. Hal a respeitava e torcia para que tudo na sua vida desse certo.
Hal não percebeu que algumas lágrimas escorreram pelo travesseiro. O albergue inteiro estava imerso em um sono profundo, mas uma voz grave foi ouvida ao seu lado:
— Seu rosto está vazando, maninho.
Era Uko, um gigante todo espremido e com os pés para fora em um colchão com metade do seu tamanho. Hal nunca conseguiria encontrar um motivo plausível para explicar a causa de seu sofrimento.
— É. Melhor fechar as torneiras — Hal sorriu em resposta. — É que eu fiquei muito tempo nadando no oceano, olha só, tem até um gosto salgado.
— É bom deixar sair essa água — respondeu Uko, aninhando-se em seu travesseiro fino com seus enormes braços. — É bom mandar tudo embora.
Na manhã seguinte, Hal agradeceu a companhia de seus amigos e disse que tinha alguns compromissos a cumprir.
— Tem certeza que tu não quer ir pescar com a gente? Vamos ver se damos a sorte de encontrar um Magikarp Shiny, tô sentindo que hoje é meu dia de sorte. Até o vento e o mar tão bem de boas. É um sinal, brother, é um sinal — falou Ika.
— Obrigado, mas vou buscar a Chefe no circo. Deixei a Popplio com eles para que praticasse durante uma semana, mas não sei se vou aguentar ficar longe dela — respondeu Hal.
— Se cuida, maninho — continuou Uko. — Se precisar da gente, sabe onde nos encontrar.
Era uma quinta-feira comum, não haveria espetáculos até sexta à noite e por isso julgou que não estaria atrapalhando os outros artistas com seus horários. Hal fez todo o percurso na estrada sozinho, quando alcançou a tenda do circo pediu que um carregador chamasse o dono e dissesse que Hala Kameahookohoia estava ali.
Quando o homem voltou, a resposta o pegou de surpresa:
— O chefe disse que não conhece nenhum Hala.
— Mas o quê? Eu estive aqui fim de semana passado, sou o dono da Popplio!
O sujeito mexeu a cabeça de forma pensativa e apressou-se para ir embora.
— Não sei do que você está falando. Volte amanhã em uma de nossas apresentações, estamos ocupados.
Hal ficou furioso com a recepção. Popplio ainda era sua e a levaria quando bem quisesse. Ele se esgueirou entre caixotes e enormes carros de transporte, conseguia camuflar-se bem porque era pequeno e o local estava relativamente vazio. Procurou uma forma de entrar na tenda ser notado, mas enquanto fazia seus planos mentalmente ouviu um sussurro vindo de trás de uma cortina. Hal estranhou o som e procurou ver de onde ele vinha. Quando levantou um dos panos, deu de cara com um pequeno Bidoof acorrentado e com a perna machucada. Reconheceu imediatamente como sendo a mesma pobre criatura que eles usavam como parte da piada do Mimikyuu.
O Bidoof pareceu desesperado ao vê-lo, arranhando as grades como se pedisse por socorro. Hal comprara alguns biscoitos para a viagem na padaria antes de sair, por isso decidiu compartilhar o alimento com o Pokémon que devorou tudo como se sua vida dependesse disso.
— Fique bem, amiguinho — falou, afagando a cabeça do castor, pois ele sabia que não conseguiria tirá-lo dali sem arranjar confusão.
Aos poucos o circo deixava de ser o espetáculo fabuloso que pensava ser.
Quando finalmente adentrou a tenda principal, percebeu que a situação era mais crítica do que imaginara. A linda Tsareena que era uma das principais atrações tinha correntes nos pés e encontrava-se servindo três pessoas que discutiam algo em uma mesa afastada. O Mr. Mime do mímico também estava da mesma forma, trabalhando como um escravo para humanos perigosos que se aproveitavam dos Pokémon. Ainda não havia sinal de Popplio.
— Apenas quinhentos ingressos foram vendidos? Isso não é nem um quarto de nossos assentos disponíveis, eu me recuso a apresentar-me para uma plateia tão mísera — falou uma voz que Hal reconheceu como sendo de um dos palhaços. Provavelmente Wally.
— Talvez este seja um sinal de que vocês e todo o resto desse bando de lixo não foram bons o suficiente! — retrucou uma voz mais alta e ameaçadora. Era o homem de cartola, o chefe do circo.
— Nós fazemos o que podemos, mas não dá mais para inovar. Tivemos sorte que aquele Popplio apareceu do nada no palco, ou eu não aguentaria fazer a mesma piada pela centésima vez — continuou Wilson, o segundo palhaço que estava sempre com um cigarro entre os dentes.
A dupla agora não tinha nada de engraçada. Eles mais se pareciam com executivos, trajados em camisas de marca e calça social. Provavelmente as vendas no circo não iam tão bem para suas altas expectativas, especialmente vindo de uma região tão simples quanto a Ilha Melemele. O povo dali não tinha dinheiro para eventos sofisticados, e a maioria dos turistas já assistiu ao show na primeira semana.
Hal retomou sua busca por Popplio esgueirando-se entre cortinas e caixotes quando encontrou um lugar que mais parecia uma enorme jaula. Havia dezenas de Pokémons presos entre grades de ferro, o circo fazia parecer que a relação entre treinador e Pokémon vinha em primeiro lugar, mas não agiam conforme seu slogan.
Popplio estava em um canto escuro quando Hal a chamou e esticou o braço em sua direção.
— Essa não! Como fui deixar isso acontecer?
A Senhorita Chefe sequer retribuiu seu chamado. Ela não compreendia que seu treinador a deixara ali para seguir um sonho. Sentiu-se trocada, traída. Hal enxergou aquilo nos olhos dela.
Ele cerrou os punhos, furioso. Não acreditava como pôde ser tão idiota. Tinha de sair correndo dali e pedir ajuda para alguém, a polícia, sua irmã, Dylan, qualquer pessoa. Em sua pressa, acabou derrubando diversos caixotes que rolaram e se espatifaram no chão, misturando alimento e ração com fantasias em um emaranhado imundo na saída, o que chamou a atenção dos três executivos que discutiam ali perto.
Hal olhou para todos os lados e avistou apenas a Tsareena que agora o encarava, assustada. Por um instante, ambos enxergaram o sofrimento um do outro. Foi como se compartilhassem toda sua história com apenas um olhar. A Tsareena levantou-se e foi o mais perto dele até onde suas correntes permitiam, indicando com o braço que o garoto deveria ir embora. Hal não pensou duas vezes e saiu dali imediatamente, mas teve tempo de ouvir o dono do circo berrar:
— Foi você quem fez essa bagunça, sua imprestável?! Tratem de punir essa serviçal, e arrumem essa baderna, seus idiotas!
— Eu já estava sentindo falta disso — respondeu a voz do palhaço Wilson, seguida do forte estalo de um chicote em contato com a pele.


Não havia a quem recorrer. Estava brigado com sua irmã — e isso incluía Dylan — logo não fazia muito sentido pedir socorro algum para o Barão Maximiliano e sua esposa. Kailani precisava de seu espaço e não seria uma boa ideia chama-la, já Ika e Uko, bem, talvez tivessem alguma experiência na área de roubar outros criminosos.
Uko puxava o barco pesqueiro de volta para a costa com Ika e Hal em cima. A pesca fora terrível e não lhes rendera nada além de cocô de Wingull e queimaduras de Tentacool.
— Então tu tá meio que planejando um resgate — concluiu Ika depois de ouvir toda história.
— É uma emergência, vocês são os únicos que podem me ajudar — suplicou Hal.
— Eu tive uma ideia show de bola! — Ika começou a empolgar-se como sempre fazia quando dizia ter um de seus insights. — Só que isso envolve roubar um caminhão antes...
— Pode ser o caminhão do trabalho? — perguntou Uko. Aquele era um claro sinal de que eles estariam deixando seu emprego na primeira semana de trabalho. Talvez por isso eles jamais encontrassem algo decente.
— É o nosso irmãozinho que está precisando de ajuda! Nós vamos fazer o possível, cara. Sobe no busão!
Hal subiu no caminhão da empresa e juntos eles partiram imediatamente em direção ao circo para punir os torturadores e salvar os Pokémon dos humanos maldosos. Hal espremia-se entre Ika e Uko nos bancos da frente, a estação de rádio tocava um rap da pesada e cada batida da música era um impacto que o automóvel causava.
Era a primeira vez na vida que Hal participava de uma missão tão importante, queria provar que não precisava mais de sua irmã. Podia muito bem se virar sozinho.
O caminhão chegou causando — pessoas e Pokémons se assustaram com o enorme veículo que empurrou tendas e derrubou jaulas pela extensa planície onde a tenda do circo fora construído. Hal perguntava-se se Ika realmente tinha uma carteira de motorista, porque ele dirigia como alguém que só tinha experiência com carrinhos de bate-e-bate nos parques de diversão. O dono do circo saiu seguido dos dois palhaços e espantou-se com o caos que se alastrava. Um caldeirão de alimento na cozinha fora derramado, o que acabou ateando fogo em alguns caixotes e na palha deixada no vagão logo ao lado.
— Mas que diabos está acontecendo aqui?! — berrou o homem.
— Deixa com a gente, chefe — respondeu Wally, sacando uma pokébola.
— Só não garanto que poderemos continuar nessa ilha depois do que rolar aqui hoje — continuou Wilson com uma expressão sombria, jogando seu cigarro no chão e apagando-o com o sapato envernizado.
Ika dirigia tão loucamente que pensava estar em um vídeo game antes mesmo dos vídeo games serem lançados. Ele só parou quando por algum motivo o acelerador não funcionou mais e a embreagem pareceu travar.
— O que tá acontecendo? — perguntou Hal, desesperado.
— Sei lá, acho que acabou a gasolina... Tu colocou gasolina antes da gente sair, Uko?
— Coloquei sim.
Quando Hal olhou pelos retrovisores, havia um enorme Machamp que levantava o caminhão com a força de seus quatro braços. O garoto abriu a porta e jogou-se lá de cima junto de seus amigos a tempo do Pokémon lutador arremessar o caminhão longe sem a preocupação de ferir seus passageiros.
Antes mesmo que se levantassem, um Golem passou girando com ferocidade para que eles não pudessem escapar. Qunado o homem de cartola chegou ele carregava uma expressão sádica em sua face, como se estivesse prestes a iniciar um espetáculo de horror.
— Olha só o que temos aqui, se não é o dono da nossa pequena celebridade! — falou o chefe.
— Pensei que já tivesse se esquecido de mim — resmungou Hal. — Devolvam a minha Popplio!
— À vontade. Por que não pediu antes? Precisava mesmo ter causado todo esse alarde? — disse o homem com certo desdém. — Aquela criatura é um desastre! Não respeita as regras e nem sabe trabalhar em equipe, quer sempre estar no centro do espetáculo como se tivesse nascido para isso! Não havia necessidade de causar todo esse tumulto em nosso tão estimado Sunset Circus...
O dono do circo voltou-se para Hal de forma assustadora e deu continuidade:
— Mas agora que vocês já causaram... acho que terão de pagar de outra forma.
— Cai dentro, maluco! — respondeu Ika, erguendo os punhos e socando o ar enquanto saltitava no mesmo lugar feito uma gazela. Era como um Hitmonchan magrelo e sem músculos. — Acabo contigo e todo seu exército, aposto que não aguenta dez minutos de porrada comigo! E aí, vai encarar?
O Machamp grunhiu e mostrou os dentes, a essa altura Ika já estava escondido atrás de seu irmão.
— Uko, tu vai ter que seu meu Pokémon hoje. Acaba com eles!
O gigante concordou com a cabeça. Agachou, pegou um pedregulho no chão menor que seu dedão e jogou-o contra seus oponentes. A pedra quicou no Golem que nem sentiu o impacto do Rock Throw de seu inimigo.
— Isso que dá treinar seus Pokémon sem Effort Value... — murmurou Ika.
Os palhaços deram a ordem do Machamp e do Golem atacarem. Aqueles Pokémons agiam com uma ferocidade que exalava toda a raiva que sentiam de humanos e treinadores. Se pudessem destruir qualquer um em seu caminho, o fariam. Uko protegeu Hal com seus braços no instante em que um forte Rollout o acertou, se ele não fosse uma montanha de músculos resistentes aquele golpe poderia ter sido fatal para uma criança.
— Deixe meus amigos em paz! — berrou Hal.
— Foi você quem perturbou a nossa paz primeiro. Agora vamos fazer da sua vida um inferno — disseram Wilson e Wally.
O rolo compressor do Golem já fazia seu caminho de volta quando uma enorme sombra cobriu o sol. Hal olhou para cima e avistou um Drampa que voava pelos céus até aterrissar na planície. De lá de cima saíram Izrael, Dylan e sua irmã Miliani, tão furiosa quanto um Gyarados Vermelho no Lago da Fúria.
— Senhor Hala Kameahookohoia, eu sabia que tinha visto o senhor dentro daquele caminhão! Então decidiu fugir de casa para divertir-se com seus colegas? Custava deixar uma carta? Custava avisar? Por que você faz isso comigo, Hal? É por isso que não posso deixa-lo sozinho, sei que vai se meter em confusão e envolver todos nós nessa história! Por que você sempre faz isso?
— Isso é uma equipe de resgate? — perguntou o dono do circo.
— Só tô aqui pra dar carona — respondeu Izrael num sinal tranquilo. — E porque disseram que ia ser... irado.
— É! Eu não sei o que está rolando aqui, mas parece divertido! — respondeu Dylan, sacando uma pokébola de seu short. — Está na hora de mostrar a todos vocês a minha arma secreta que estou esperando para revelar desde o primeiro capítulo! Vai, Wimpod!
Uma pequena criaturinha surgiu no meio do campo de batalha. Era um Pokémon nativo de Alola que Dylan provavelmente capturara quando foi surfar próximo às rochas distantes do litoral. Era um artrópode de coloração lilás e uma dura carapaça nas costas, ele tinha perninhas minúsculas escondidas por debaixo de sua armadura e se movia lentamente na terra. Quando ficou de frente ao Machamp e o Golem com sua aparência ameaçadora, imediatamente correu e se escondeu entre as pernas de seu dono.
— Ih, rapaz... Eu devia ter treinado ele mais. Disseram que a evolução é maneira — comentou Dylan.
— Vai dizer que você não tem mais nenhum Pokémon? — retrucou Mili. — Você morou a vida inteira em Hoenn, não treinou nenhum Aggron ou Metagross nesse meio tempo?
— Eu tenho um Makuhita, mas deixei ele em casa. Gostamos de surfar juntos de vez em quando.
Os dois palhaços estavam acostumados a dar o show, mas era a primeira vez que outros se faziam de ridículo em seu lugar.
— Wilson, nós poderíamos nos apresentar com esses caras! Ia ser a melhor piada da história! — falou Wally.
— Eu não trabalho com outras pessoas, só você — respondeu o outro, sério.
— Poxa, daria um bom número...
— Podemos acabar logo com isso?
Hal e seus amigos agora estavam encurralados por todo um elenco furioso com a destruição causada em sua base. A estrutura do circo fora completamente destruída e Pokémons corriam livremente por aí. Em meio ao caos, o pequeno Bidoof colocou-se de frente aos seus agressores para proteger aqueles humanos.
— É o Mimikyuu! — gritou Dylan.
— Não, cara, era só um Bidoof disfarçado, você não tinha entendido? — perguntou Hal.
— Ah, tá.
O Bidoof rosnava furioso, mas não havia muito que ele pudesse fazer contra criaturas tão violentas. O dono do circo já estava cansado daquela baderna.
— Acabem logo com eles. Já estou farto dessa ilha miserável nesse continente esquecido pelo civilização!
Neste instante, uma misteriosa força pareceu impedir o Machamp e o Golem de atacarem. Era como se existisse uma barreira invisível na frente deles. Ao se derem conta, a Tsareena havia se libertado e ela agora tinha companhia. O Mr. Mime e o mímico auxiliavam na luta, e para a surpresa de todos, Kailani estava ali com Salandit em seu ombro e a Popplio muito ferida no colo. Montada em um formoso Mudsdale, o cavalo galopava radiante, como se ela fosse a rainha daquelas terras.
— Ninguém chama a minha Alola de continente miserável.
— Kailani! — disseram Hal e Mili alegremente.
— Michael, o que pensa que está fazendo? — indagou o homem de cartola.
— Desculpa, chefe, mas eu sempre odiei os métodos como vocês tratavam os Pokémons e não vou permitir que isso continue — respondeu o mímico.
Kai era a única treinadora experiente dentre todos ali presentes, ela ordenou que o Mudsdale usasse um poderoso Earthquake e toda a terra começou a tremer. As pessoas entraram em pânico e o caos espalhou-se, dessa vez a estrutura do circo desabou por completo e os Pokémons entraram em um frenesi.
— Todos a bordo do dragão da sorte! — berrou Iz, referindo-se ao seu Drampa.
Mili quis que seu irmão fosse o primeiro a embarcar, mas Hal recusou-se.
— E a Kai? Não podemos deixa-la sozinha!!
— Apenas suba! — Mili respondeu apressada. — Eu mesmo vou salvá-la.
O terremoto fora forte o bastante para derrubar o Golem, mas o Machamp continuava de pé. Kailani agora enfrentava o Pokémon lutador com seu Mudsdale, mas aquele Machamp batalhava como se sua vida dependesse disso. Wilson acendeu outro cigarro quando encarou o estado de preocupação de seu adversário.
— Garota, você fodeu com a minha vida — disse o palhaço calmamente.
— Estou acostumada a isso — respondeu Kai com um sorriso sarcástico.
— Eu só quero que saiba que não vou pegar leve porque você é uma mulher.
— Querido, eu não preciso que você pegue leve comigo. Sou eu quem decide se vou pegar leve com você.
O Mudsdale fez uma investida com ferocidade e o Machamp bloqueou o alazão com seus próprios braços. Mili assistia a batalha de longe, mas sabia que sua amiga não resistiria muito tempo. Hal saltou do Drampa e correu em direção das duas.
— O que está fazendo, cara? — gritou Dylan.
— Minha vida está ali! Minha família! Elas são tudo que eu tenho!
Quando Hal gritou, a atenção de Kai claramente desviou-se da batalha. Wilson notou que aquela criança tinha certa influência sobre ela, e adorava especialmente mexer com o ponto fraco das pessoas.
— Machamp, mude o foco da luta. Acabe com aquele menino.
O Pokémon lutador avançou de forma violenta contra Hala, mas uma pequena figura saltou de sua mochila e jogou-se contra o punho furioso da criatura. Era o Exeggcute que estivera o tempo todo ali escondido, quando viu que seu dono estava em perigo ele o protegeu, exatamente como o grande Exeggutor os protegera no dia da tempestade sem ser esperado. O Machamp despedaçou a criaturinha que não resistiu a um golpe tão poderoso e todos entraram em choque
— Barão, por que você me protegeu? Por quê?! — Hal gritou. — Por que você deu a vida por alguém como eu?!
O Exeggcute solitário o encarou com metade do rosto quebrado e Hal sentiu como se pudesse ouvir uma voz misteriosa em sua mente.
“Somos nós que escolhemos nosso destino.”
A casca do Exeggcute se desfez em sua mão. Wilson os encarava de longe no meio das chamas como um arauto maligno, Hal nunca imaginara que um palhaço poderia ser tão macabro.
— Seu Pokémon virou ovo frito — disse Wilson, rindo de sua própria piada.
— Ele não era só um Pokémon — murmurou Hal —, ele era meu amigo.
Hal retirou então a Leaf Stone que ganhara do Tio Max, o mesmo homem que o inspirou a nomear seu amigo Exeggcute. Não sabia se funcionaria, mas encostou mesmo assim a pedra nos restos mortais da criatura que no mesmo instante foi coberto por uma luz branca e seu corpo aumentou de tamanho. O Barão transformou-se em um gigantesco Exeggutor, com um pescoço longo e patas enormes. Era um dos maiores Pokémons que já vira, e o povo de Alola costumava dizer que aquela era a forma original dos Exeggutor que só diminuíam de tamanho por não viverem em condições adequadas.
Hal sentiu seu corpo ficar leve, o mesmo aconteceu com Kailani e Miliani. Alguma força psíquica os afastava da luta até onde o Drampa os aguardava para sair dali o mais rápido que pudesse.
— Eles estão fugindo! Acabem com eles! — berrou o homem de cartola.
Mas o Exeggutor era muito poderoso e sozinho pretendia acabar com tudo que restara daquele circo tortuoso. Hal pegou Bidoof no colo, outros Pokémons como a Tsareena também subiram a bordo. Iz só desejava que seu dragão da sorte fosse forte o bastante para carregar todos para longe dali.
Hal berrou alto o nome de seu Pokémon, mas o Barão se recusava a acompanha-los.
“Obrigado, amigo. Até a nossa próxima apresentação! Talvez demore muito tempo até que voltemos a nos encontrar, quem saber até uma eternidade, mas nunca se esqueça do show que viu aqui hoje!”
O Drampa disparou rumo ao céu, deixando para trás um rastro do brilho forte onde antes existiu o Sunset Circus. Ouviu-se uma explosão intensa seguida do som de sirenes da polícia e dos bombeiros que percorriam a estrada na direção oposta. Hal sentiu-se culpado, nunca era capaz de resgatar a todos, alguém sempre saía ferido. Prometeu a si mesmo que cresceria e se tornaria forte para proteger aqueles que precisassem de sua ajuda.
Iria se esforçar para um dia ser como um guardião para a ilha. Um kahuna.

   

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  1. Hal ,isso foi vacilo , sincero ,mas vacilo

    Tem um outro treinador surfista de Hoenn que tem um Makuhita ,seria isso uma coincidência ? ( E Golisopod decepcionou um pouco com aquela ability )

    Barão ,essa cena , ele foi um personagem que me fez gostar um pouco do Exeggutor (Eu até usaria na minha equipe ,porem ele aparece lá no fim do jogo) ,foi um bom final para um herói que pelas circunstancias se tornou um vilão

    E assim ,começa a historia do Hala para se tornar aquele velho barrigudo que é um dos mais fortes treinadores de Alola

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    1. Ele é criança, pô! Deixa o coitadinho errar kkkkkkkkk

      Essa do Makuhita foi só um easter egg cara, na verdade foi um dos poucos episódios de Hoenn que eu me lembro de ter assistido! Mas voltei a acompanhar Sun e Moon (vi só o primeiro na verdade) e achei muito bacana kk Saudades de ficar na frente de TV assistindo Pokémon, acho que acompanharei mais alguns :')

      Poxa, nem me fale do Golisopod, a batalha está fervendo e o bicho cai fora! hahahaa Pelo menos a aparência dele ficou maneira, dá pra tacar o terror com aquele First Impression e depois sair correndo kkk

      E assim nos despedimos mais uma vez do pobre Barão... Foi bom rever um rosto antigo de nossa velha Sinnoh, até eu aprendi a gostar muito desse personagem. Pior que eu também estava louco pra ter um Exeggutor no meu time e o bicho só vai aparecer lá no finalzinho! Isso me decepcionou um pouco... Mas coloquei a Tsareena no lugar, porque Tsareena é a nova Gardevoir haha.

      *spoilers on* Eu estou pertinho da Liga Pokémon cara, mas enquanto pesquisava algumas coisas para a fic fiquei sabendo que o Hala virou membro da Elite dos 4! velho, tipo, VELHO, fiquei muito contente em descobrir que aquele velhinho aleatório de um dos trailers se tornou um dos treinadores mais fortes de Alola kk Bateu até um orgulho. Daqui a pouco vou enfrentá-lo e ver se preparo um post de despedida junto com os últimos dois capítulos. Me diverti muito com essa fanfic, só boas lembranças!

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